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dialogues, proposals, stories for global citizenship

Soja e o lobo bravo

Esta será uma crônica distinta, mais pessoal.

Luc Vankrunkelsven

06 / 2004

Nas noites em que faço palestras, afirmo freqüentemente: “Uma pessoa não vive só de análises”. Em seguida, começo a cantar. Às vezes, recebo alguns olhares estranhos mas, em geral, as pessoas despertam e reagem com: “Nossa, que canção bonita…”

É importante compreender a complexidade de muitas situações, a relação entre as coisas, etc…, mas só a análise paralisa as pessoas. A formulação de alternativas pode ajudar, dá perspectiva. Poesia, canto, teatro, dança, festa devolvem o fôlego. Os brasileiros são nossos exemplos nisso. E, na verdade, todos os povos do Sul. Recentemente, pude tomar parte nisso durante o congresso quadrienal da Via Campesina, em São Paulo. Foi uma experiência impressionante, com 400 representantes de 130 organizações de 76 países. Eles representam cerca de 200 milhões de pessoas: camponeses, agricultores familiares, ‘campesinos’ de todos os tipos. Às vezes, são organizações numerosas, principalmente na Ásia. Tomei café da manhã com um nepalês. “Quantas pessoas participam do seu movimento?”, perguntei cautelosamente. “Um milhão!”, foi a resposta orgulhosa. Da KRRS, uma das muitas organizações da Índia: 4 milhões. Nós aqui da Fetraf-sul, no sul do Brasil, somos modestos: 84 mil pessoas. Mas, sem pânico: agora, entre os dias 12 e 16 de julho de 2004, teremos na capital Brasília o primeiro encontro nacional, com 3 mil lideranças rurais de todo Brasil. A intenção é criar, no final de novembro de 2005, uma Fetraf-Brasil. E, então, também representaremos milhões.

Os dias do congresso têm início, pelas manhãs, com uma ‘mística’: um misto de simbologia verbal, canto, silêncio, dança, bandeiras, fotos. Na verdade, em qualquer momento do dia, é possível que alguém comece a entoar uma canção ou puxar uma palavra de ordem, a tocar um violão ou a dançar. A mística, a alma, nunca está distante. É parte da natureza do povo.

Lá em Flandres nós precisamos criar grupos temáticos específicos, no estilo de ‘a alma da agricultura’  (1).

Voltando ao espírito dos brasileiros

Infelizmente a alma também pode mirrar, americanizar-se. Foi o que presenciei ontem à noite. Triste de ver, mas também educativo.

Quem me conhece um pouco sabe que, no domingo à noite, sempre fico um pouco perdido, quando não participo do serviço religioso vespertino, cercado pelos muros seguros do mosteiro. E quando eu, após uma semana de andanças, não sinto o calor da ‘hora do trago’ com meus confrades. Para mim isto significa apreciar, tranqüilamente, um caneco e meio de Tripel  (2). Há sempre alguém disposto a dividir uma Westmalle  (3 ).

Este sentimento de solidão também me sobrevinha quando eu morava sozinho em Bruxelas. Mais especificamente, nas poucas vezes em que, no domingo à tarde, por motivo de força maior, eu não podia empreender a viagem de trem e bicicleta para Averbode. Em Guarapuava, no Brasil, não é diferente. Durante a semana não me incomoda. Mas a noite de domingo traz esta sensação de necessidade vital de lançar âncora. Um ritual que se renova. Se este ritmo é quebrado, ocorre um momento de desorientação. E nos restam tão poucas formalidades, tão poucos rituais. Será que é por isso que, socialmente, às vezes temos a sensação de estarmos sem rumo? Será que é isto o que eu estou sentindo por todo o corpo? Na verdade este vazio/esta dor é uma benção que te estimula a refletir sobre a vida e a convivência. Esta solidão relativa te confronta com as raízes de sua existência e, em mim, me instiga a escrever. Escrever como uma dádiva, que te surpreende.

Decido dar uma volta, em direção a ‘Van Gogh’. Não é uma fuga. Eu sempre gostei de Van Gogh: sua vida, sua paixão, sua tragédia. E, pelo jeito, não sou só eu. Ao longo dos anos, encontrei muitas pessoas fascinadas por Vincent: sua vida, suas pinturas, suas cartas ao irmão Theo. Vincent, eternamente em busca, que vivenciava simultaneamente o social e o individual, um possuído que descrevia ambos representando-os em cores vibrantes. Como pregador e devido a sua opção pelos pobres, ele definhava em Borinage. Naquela região carbonífera, na Valônia [Bélgica], ele vivia com Sien, uma prostituta. Depois, partiu para a França. Foi na França que ele pintou seus ciprestes flamejantes e outros quadros infernais. Também foi aqui que ele, num ato desesperado, cortou sua própria orelha. Quando, entre os períodos ‘Borinage’ e ‘França’, passou um curto período em sua terra natal, ele pintou, em 1885, o mundialmente famoso quadro ‘Os comedores de batatas’. São uma reminiscência de sua região natal Nuenen, próxima a Eindhoven. Com uma imagem ele retrata, com perfeição, a situação social no século XIX. Dá até para estabelecer um elo com a América. Durante a grande crise da batata (provocada pela doença da batata Phytophthera infestans), só na Irlanda morreram um milhão de pessoas. Muitos imigraram para os Estados Unidos da América. Alemães, suíços, italianos buscaram a sorte no sul do Brasil  (4).

Vamos deixar claro que não pretendo seguir o exemplo de Vincent em tudo. Aliás, infelizmente não recebi o dom da pintura.

Filhotes de lobo em uma 4 x 4

Guarapuava (‘lobo bravo’, no idioma Guarani) tem a melhor pizzaria do continente. Chama-se ‘Van Gogh’. A pizza é melhor do que em qualquer pizzaria na Europa.

Caminho pela Rua XV, a rua principal do que outrora foram os campos. Os campos que formavam o território do lobo. O lobo não existe mais. Os campos no sul do Brasil, que tinham algo de mar infinito, também não existem mais. O que, em 2000, ainda vi como campos floridos, revejo agora, em 2002, transformados em lavouras de soja. O preço internacional do dólar é atraente demais para impedir que o Ouro Verde  (5) faça seu trabalho.

O lobo bravo pode estar quase extinto, mas na Rua Quinze, você encontra com cada mais freqüência, outras espécies de lobo bravo. Ou, principalmente, seus filhotes.

O que a polícia está fazendo aqui? Por que há fila aqui, no domingo à noite?

O desfile para lá e para cá parece ocorrer nas imediações de um ‘rock bowling’. Este é o ‘point’ da moda. A cada 20 metros encontra-se um grupo de jovens encostados num carro de porta-malas aberto, envolvidos por música no volume máximo. Cada grupo é uma discoteca em si. Cada carro tem sua música e seu próprio bar. São carros comuns. Não há muito a comentar sobre os mesmos. Mas a fila, esta é outra história. A polícia está nos lugares onde não há necessidade. Isto também é ritual. Onde o trânsito foi interrompido, a causa da fila, não há nenhum policial à vista. Mas não há impaciência. Não se ouvem buzinas. O objetivo é, claramente, ver e ser visto. Deixe que o outro passe à minha frente e interrompa o fluxo. Enquanto isso, meu Ford, minha Mitsubishi ou Chevrolet 4 x 4 está sendo admirado. Não, não a ‘minha’ 4 x 4, mas o carrão de luxo do papai. O papai que enche os campos de soja, que derruba os últimos remanescentes de mata de araucária e ganha muito dinheiro. Como lobos bravos eles devoram tudo o que encontram pela frente. A grande diferença é que os lobos nativos da região mantinham o equilíbrio do ecossistema na região. Os novos lobos destroem a biodiversidade, afugentam a fauna, poluem as águas, exaurem o solo. O verdadeiro agricultor e sua família estão acuados. Até mesmo o gado, após séculos de domínio, teve que ceder espaço para o grão milagroso. Os filhotes de lobo reúnem-se no domingo à noite nas caríssimas 4 x 4. De seus carros-discotecas-bares, os outros observam. Um ser humano, um povo, tem necessidade de rituais.

Meu vizinho Jairo apareceu no jornal deste domingo. Ele trabalha para o Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Jairo: “Originalmente, 40% da área do estado do Paraná era coberta com exuberantes florestas de araucária. Entre 1995 e 2000, a região perdeu 4,34% ou seja, 177 mil hectares de área verde. Em 2002, somente 0,8% da floresta estava em bom estado de conservação. Isto representa cerca de 60 mil hectares. Atualmente, já deve ser muito menos. Mais 700 mil hectares ainda estão cobertos com floresta que já foi explorada. Há muito corte ilegal de árvores pelas grandes madeireiras. Como piratas modernos eles invadem as florestas, armados de motosserras. Por um metro cúbico de pinheiro (árvore-símbolo do Paraná) – cortado ilegalmente, eles recebem R$ 150; por madeira nobre, imbuia, R$ 500. Além disso, o preço da soja está interessante demais para não transformar uma floresta ou campo em lavoura de soja. Uma fazenda sem pinheiros, ‘limpa’ para o plantio de soja, vale quatro vezes mais do que uma propriedade com as imponentes árvores preservadas. Se forem flagrados, a multa é de apenas R$ 300 por árvore. É fácil fazer a conta.”

O que Vincent Van Gogh retrataria hoje?

Um ser humano não vive só de análise. Saboreio a pizza e afogo minha tristeza num copo de vinho tinto, num restaurante vazio. Tristeza por tanta destruição provocada pelo que as análises dos movimentos sociais aqui chamam – sem pudores – de capitalismo. Lágrimas provocadas por tanta falta de rumo das cabeças, dos corações, na Rua Quinze, no Brasil, na Europa. De mim mesmo.

Os brasileiros jantam tarde. Após as 20 horas, os primeiros fregueses começam a chegar.

Eu já estou de volta à Rua Quinze. Eu olho e observo. Os filhotes de lobo em suas 4 x4 estão radiantes. Eles estão sendo vistos e adorados. A região finalmente está progredindo. Graças a seus pais, os lobos ousados. Acabou-se aquela ‘bagunça’ de campos, lobos, florestas, papagaios, tucanos, gralhas-azuis, silêncio, introspecção. Viva a soja!

Como Van Gogh retrataria esta alegria? Ou será que é um drama? Um drama diferente daquele vivido pelos comedores de batatas europeus? No século XIX, muitos fugiram para a América. Em busca de uma vida melhor. Do ‘Novo Mundo’.

É este o mundo novo, diferente, do século XXI?

‘Um outro mundo é possível’, cantamos em coro, na missa solene anual pela globalização alternativa, em Porto Alegre.

Mas aqui é Guarapuava. Aqui, o deus ‘Capital’ comemora sua vitória mundial.

Andarilho, monge peregrino, monge ‘surfador’

Na calçada há um andarilho maltrapilho e miserável. Com seus pés descalços, ele lembra um monge: desajustado à vida convencional. À vida conformada, ditada pela burguesia. Ele lança um olhar simultaneamente curioso e divertido para o desfile. O mendigo, o monge praticam outros tipos de rituais. Sinto uma conexão com ele.

Antes de ir dormir, dou uma ‘surfada’ em direção ao mundo virtual de www.wervel.be. Vejo que, logo antes de mim, o site foi visitado por um argentino. Seria porque, após os brasileiros, esta semana foi a vez dos argentinos sofrerem o golpe do embargo de sua soja? Nesta semana houve uma trégua (até quando?) na briga da soja entre China e Brasil. O Paraná espera poder continuar suas exportações a todo vapor, embora já estejam se conscientizando de que o Brasil adotou uma posição muito dependente dos caprichos imprevisíveis dos chineses.

A Argentina exporta 75% de sua soja para a China. Desde há poucos dias, são eles que estão tremendo de medo.

Será que na Argentina os filhotes de lobo também desfilam nas 4 x 4 do papai na frente de um ‘rock bowling’?

Ou será que eles têm outros rituais?

28 de junho de 2004.

Postscriptum, 15 de junho de 2005:

Que um fazendeiro compre uma 4 x 4, ainda é compreensível. É evidente que é uma forma de exibir sua riqueza, mas o objeto de consumo também tem uma função. No interior do Brasil, ainda há muitas estradas de terra. Embora desfilem brilhando na cidade, seu jipe de luxo apresenta, regularmente, manchas de barro. Na Europa é diferente. A mania do 4 x 4 também é geral, da Itália à Suécia, embora, no final de 2005, a moda já estivesse passando. Nos últimos anos, a Bélgica também teve uma explosão nas vendas, por um lado devido à moda, por outro em virtude de vantagens tributárias: impostos menores. É que o veículo pode ser registrado como um caminhão pequeno. Isto mudou em 2005 e a preferência já parece ter diminuído. Enquanto isso, para os fanáticos, a salvação está a caminho. Como uma 4 x 4 lustrosa parece ostentação, o britânico Colin Dowse lançou no mercado o ‘Spray on Mud’ [‘lança barro’]. O motorista consciente pode agora utilizar este produto para ‘provar’ que possui o veículo por necessidade.

Dowse: “As vendas estão de vento em popa. Principalmente nas regiões mais abastadas da Grã-Bretanha, o ‘lança barro’ é um sucesso. E Londres é a campeã de vendas.”

Alienação completa e generalizada. Vamos continuar aprofundando nosso grupo temático ‘Alma da agricultura’. Ou devemos transformá-lo em ‘Alma da sociedade’?

Os filhotes tornam-se lobos. Será que eles, algum dia, se tornarão sensíveis ao aspecto mais profundo da vida, agricultura e alimentos?

(1) Wervel tem vários grupos temáticos. ‘Alma da agricultura’ propõe fazer uma abordagem temática de ‘agricultura e espiritualidade’ no grupo de trabalho pluralista que é Wervel.
(2) Ver: Luc Vankrunkelsven, ‘De patat en de boon’ [‘A batata-frita e o feijão’], p. 90-92 em: ‘Brazilië: spiegel van Europa? Op zoek naar eigen spirituele bronnen.’ [‘Brasil: espelho da Europa? Em busca de suas próprias fontes espirituais.’] Dabar/Heeswijk, 2000.
(3) No início de 2004, a ‘Articulação Soja’, na Holanda, lançou um DVD interessante sobre o crescente fenômeno da soja. Título: ‘Het Groene Goud’ [‘O Ouro Verde’]. Pode ser adquirido na secretaria de Wervel. Ver também: www.bothends.org
(4) Nota do tradutor: chope produzido pelos monges trapistas belgas
(5) Nota do tradutor: marca do mesmo chope

Key words

soy, social inequality, liberalism


, Brazil

file

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Book

Fetraf (Fédération des travailleurs de l’agriculture familiale) - Rua das Acácias, 318-D, Chapecó, SC, BRASIL 89814-230 - Telefone: 49-3329-3340/3329-8987 - Fax: 49-3329-3340 - Brazil - www.fetrafsul.org.br - fetrafsul (@) fetrafsul.org.br

Wervel (Werkgroep voor een rechtvaardige en verantwoorde landbouw [Groupe de travail pour une agriculture juste et durable]) - Vooruitgangstraat 333/9a - 1030 Brussel, BELGIQUE - Tel: 02-203.60.29 - Belgium - www.wervel.be - info (@) wervel.be

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