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Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

réalisé par Wervel et Fetraf

10 / 2008

Navios Noturnos

A história foi fortemente determinada pela evolução das embarcações e da navegação. A Grécia Antiga se dispôs a sacrificar suas florestas e solos férteis pelo controle militar do Mar Mediterrâneo e regiões vizinhas.

No ano de 1492, Cristóvão Colombo partiu em sua expedição. Ele acreditou que havia aportado na Índia – mas na verdade, foi parar na América. É por isso que, por comodidade, até hoje chamamos a população nativa de ‘índios’. Do ponto de vista europeu, há mais de cinco séculos, fala-se de um ‘descobrimento’. De Colombo como o descobridor ou, segundo alguns historiadores afirmam: o ‘redescobridor’ de um ‘continente perdido’. Porém, a perspectiva dos habitantes originais nos corrige firmemente: trata-se de uma invasão e de um ataque-surpresa.

No ano de 1500, Pedro Álvares Cabral repetiu a dose: o redescobrimento da ‘Terra de Santa Cruz’. Por causa da madeira vermelha do pau-brasil, este imenso país foi chamado, posteriormente, de ‘Brasil’.

O triângulo da navegação no Oceano Atlântico

A globalização tinha se iniciado. Portugueses e espanhóis dominavam os mares e as terras além-mar. Holandeses, franceses e ingleses os seguiram. Embora os portugueses, enquanto piratas, estivessem mais interessados no domínio dos mares do que nas terras além deles, todos – franceses, ingleses, holandeses, portugueses, espanhóis: ou seja, europeus – voltaram seus objetivos para destinos longínquos, terras longínquas, águas revoltas, cana-de-açúcar, ouro, prata, escravos. Os navios eram seus meios para alcançar essas promessas. Todos obtinham grandes lucros com o comércio internacional de escravos.

Durante séculos a rota dos navios desenhou um triângulo entre Europa-África-América. Para limitar-me por um instante à Espanha e Portugal: com ouro e sal, fumo e armas, os colonizadores compravam dos mercadores de escravos (geralmente muçulmanos) os africanos para deportá-los para as duas Américas – assim surgiu a indústria européia de armamentos intercontinental, intimamente vinculada ao comércio de escravos. Quantos milhões de pessoas isso envolveu? Nenhum historiador é capaz de nos dizer com certeza. Foram 5 milhões? Dez milhões? De modo geral, estima-se que 3 milhões de pessoas foram deportadas para a América do Norte (Virgínia e Flórida), 3 milhões para a região do Caribe e mais 3 milhões para o Brasil. Muitos morriam durante a viagem e eram simplesmente jogados no oceano. Junto com os escravos, os navios mercantes transportavam nos porões imagens de santos europeus. Estes causavam grande impressão nos africanos e nos povos indígenas, o que contribuía em grau considerável para o sucesso do empreendimento.

Quando os sobreviventes eram desembarcados no Rio de Janeiro, São Luís, Salvador da Bahia, os navios podiam rumar em direção à Europa. Agora iam carregados com açúcar bruto (‘rapadura’ para ser refinada no norte da Europa) e todo tipo de plantas medicinais (‘drogas do sertão’). Pau-brasil, ouro e prata também foram intensamente saqueados, mas isto ocorreu em outro ciclo econômico. Neste tema, Piet Heyn e a história da Holanda não são desconhecidos.

Século XIX: século de navegação

No século XIX, ocorreu o Grande Avanço nos oceanos. Nunca antes se viu tantos escravos capturados quanto há meros 200-160 anos. O navio a vapor iria aumentar o movimento nos oceanos, partindo da Europa para os quatro cantos da terra. Se analisarmos as estatísticas da população mundial, chegamos a uma conclusão muito estranha. Em 1820, a Europa tinha uma densidade populacional muito baixa. A maioria dos 123 milhões de europeus ainda morava em vilas praticando o que hoje se chama de agricultura de subsistência, ainda que nesta época já estivéssemos em meio à industrialização e ao empobrecimento das cidades relacionado a este processo. Em 1900 a população havia mais que dobrado, chegando a 267 milhões. Dez anos depois já eram 294 milhões. Por causa da pobreza, fome e falta de perspectiva (praga da batata!), 55 (!) milhões de europeus mudaram-se, entre 1846 e 1924, para as Américas, Austrália, Nova Zelândia, sul da África e Sibéria. No espaço de um século, em 1930 a população mundial branca já havia crescido para 35%. Este processo de migração se reverteu quando a população do sul começou a crescer mais rápido enquanto a da Europa começou a diminuir. De repente, a migração não fazia mais parte do sistema. Ao contrário, a migração torna-se um privilégio concedido a conta-gotas a quem pode servir o sistema mundial. Por exemplo, especialistas em informática indianos podem mudar-se para a Europa ao passo que operários turcos ou africanos despertam, antes, sensação de ameaça ao nosso bem-estar.

Navios carregados de trigo e algodão

A história dos navios que se cruzam continuou principalmente na euforia do século XIX. Enquanto o triângulo África-América-Europa, existente há séculos, ainda persistia, milhões de europeus fugiam de seus próprios países, para atender o ‘canto da sereia’ do Novo Mundo. O tráfico de pessoas seduziu, por exemplo, os poloneses com promessas de uma vida próspera em São Francisco, nos Estados Unidos. Iludidos, eles foram desembarcados nos arredores de São Francisco, em Santa Catarina, no sul do Brasil. Muitos destes primeiros ‘colonos’ não sobreviveram à aventura.

Enquanto desde a década de 70 do século XX a migração de pessoas em direção à Europa está sendo bloqueada, a migração de mercadorias continua a toda velocidade. Em 1850 vimos que, graças à tecnologia do navio a vapor, milhões de toneladas de trigo e algodão dos EUA chegaram à Europa. À primeira vista era uma solução bem-vinda para o problema da fome, provocada pela doença da batata. Porém, devido às importações baratas, a agricultura em nossa região entrou em crise. Agricultores foram à falência, as indústrias de linho e têxteis entraram em declínio devido à importação de algodão barato. Cidades prósperas como Ath, na região da Valônia [Bélgica], tornaram-se miseráveis.

Desde meados do século XIX, a Família Cargill  (1) controla o comércio internacional de cereais. Junto com outras quatro multinacionais, esta ‘empresa familiar’ divide, ainda no século XXI, o comércio mundial de trigo e outros produtos a granel correlatos.

Navios, técnicas de refrigeração e petróleo

O século XX torna-se ‘o’ século do transatlântico. O século dos gigantes dos mares: navios graneleiros, navios de contêineres, navios refrigerados, petroleiros, navios-tanque de gás. Principalmente os acidentes com petroleiros chegam, com regularidade, às manchetes dos jornais. Trata-se sempre de desastres com conseqüências ambientais calamitosas. Petróleo e seus derivados representam, nos últimos cem anos, a circulação sangüínea do sistema comercial. Sem energia não há transporte a granel, não há contêineres nem refrigeração. Não há frango congelado do Brasil no prato dos europeus.

É principalmente a combinação do gigante dos mares com as técnicas de refrigeração modernas e os grandes portos marítimos que desregulam e destroem a agricultura regional em todo o mundo. Os caminhões e mesmo o trem em terra firme não conseguem competir com o transatlântico. Está ficando mais barato embarcar produtos da Argentina para Roterdã do que produzi-los aqui mesmo, na Holanda e na Bélgica, ou comprá-los da Alemanha.

Navios que se cruza

Uma questão intrigante é o que estes gigantes dos mares carregam de volta, depois de deixarem sua carga de soja em Roterdã ou Antuérpia? Desde da Revolução Verde do século XX, Cargill & Cia passaram a controlar não só o comércio de cereais da América e da Europa; eles também embarcam o grosso dos substitutos de cereais: soja, tapioca, torta de amendoim, farinha de peixe, torta de algodão e muitos outros.

Pelo que eu sei, nunca foi estudado a fundo como isso ocorre concretamente. Desde 1962, cresce a tonelagem importada de substitutos de cereais – liderados pela soja – em nossos portos. O que eles transportam na volta? Agrotóxicos e adubos – portanto, petróleo – para tornar possível o próximo ciclo de mineração, digo, ciclo agrícola? Ou são cereais franceses ou americanos que alimenta grande parte da África e América do Sul? Só nos resta a escuridão. Noite.

Sabe-se que Cargill não só possui navios que se cruzam mas também mantém permanentemente ‘navios flutuantes’ com cereais nos mares. No âmbito da especulação – e em casos de escassez de alimentos catastróficas, de pedidos interessantes e inesperados – eles podem ser imediatamente acionados em todo o mundo. Como os porta-aviões da marinha norte-americana no Golfo.

Navios na calada da noite, aviões durante o dia

Desde 2003 moro e trabalho em tempo parcial no Brasil e na Europa, sempre em blocos de três meses. Não, eu não viajo em um transatlântico, mas graças ao querosene de um avião comercial. Este transporte é diametralmente oposto aos meios de locomoção que uso durante o ano: na Europa uso o trem e uma bicicleta dobrável de marca Brompton; no Brasil viajo de ônibus. É claro que isto incomoda o ecologista que eu tento ser, mas consolo-me com o pensamento: “Cargill, Monsanto, Renault, Coca-Cola se organizam internacionalmente, nós podemos/devemos fazer o mesmo com nossos movimentos sociais”. E urgentemente. A utilização da internet é bastante importante, mas a criação de redes e de solidariedade internacionais exige que as pessoas também interajam pessoalmente, se vendo, se tocando, cheirando e conversando. Mesmo que estas idas e vindas de avião estejam longe de ser ‘kosjer’ [puras].

Wervel-Fetraf e as crônicas sobre soja

Wervel permite que eu trabalhe no Brasil para Fetraf (www.fetrafsul.org.br) e Wervel (www.wervel.be). Fetraf permite que eu trabalhe na Europa para Wervel e Fetraf. Sou muito grato a ambas as organizações por isso.

Nesta dinâmica, teve início em fevereiro de 2004 um projeto de intercâmbio junto ao governo de Flandres, Administração de Agricultura e Horticultura: ‘OMC e fluxos de proteínas. Agricultores flamengos e brasileiros querem participar das decisões’. Em janeiro de 2004, enviei um texto para o escritório de Wervel: algumas notícias sobre soja para os colegas Frederik Claerbout e Patrick De Ceuster, reproduzidos a seguir:

[Roundup da Monsanto e a ferrugem asiática

Leio aqui na ‘Gazeta do Povo’ (de 10/01/04) sobre a ‘ferrugem asiática’ – um tipo de fungo vindo da Ásia que ataca a soja, detectado pela primeira vez em 2000/2001 e provavelmente introduzido a partir do Paraguai. A doença é disseminada pelo vento e o fenômeno pode provocar uma redução de até 80% na produção. Tente imaginar o que isto representa aqui, com suas lavouras gigantescas de monocultura. É como se a natureza iniciasse sua vingança contra a euforia em torno da soja. É ligeiramente comparável com a gigantesca crise do milho nos EUA na década de 70. Naquela ocasião, a ‘salvação da lavoura’ foi uma raça selvagem originária do México…

O interessante é que foi a concorrente Syngenta que divulgou a notícia e lançou o produto que controla o fungo (quase daria para supor que foram eles que espalharam o fungo…. Trava-se aqui uma verdadeira guerra da soja, sabe). Além disso, há uma frase no rótulo informando que a soja transgênica da Monsanto também é suscetível a este fungo.

Portanto, ainda teremos notícias sobre o assunto!

Simultaneamente, outra notícia: A China informou que quer importar somente soja convencional (não-transgênica) do porto de Paranaguá. Uma disputa que tem se estendido por meses. O Governador Roberto Requião quer que o Paraná seja declarado ‘área livre de transgênicos’, enquanto, em Brasília, o Ministro de Agricultura, Roberto Rodriguez, tem sistematicamente negado este pedido. A questão será julgada no Supremo Tribunal Federal.}

Luc, 10 de janeiro de 2004

O colega Patrick achou uma excelente idéia o envio regular de notícias do outro lado do oceano. Assim nascerem as ‘crônicas sobre soja’ (sojaflitsen) para o website de Wervel. Naquele momento não estávamos pensando na publicação de um livro sobre soja. O projeto terminou no dia 30 de junho de 2005; em 1o de julho de 2005 teve início uma nova relação de cooperação com diversas organizações: ‘Além da soja’. A nossa própria conscientização e a sensibilização de brasileiros e europeus pode ter continuidade e ser aprofundada. Razões, portanto, para publicar nosso livro sobre soja. Simultaneamente, em neerlandês e em português.

Datado?

Prezado leitor, você provavelmente observou que optamos por manter as crônicas na seqüência cronológica em que foram escritas. Elas não foram agrupadas por temas ou selecionadas. Por quê? Será que este livro não ficará irremediavelmente desatualizado, datado, no momento em que for publicado? Alguns detalhes ou situações descritos nas crônicas realmente já mudaram desde que foram escritas. Afinal, na calada da noite, os movimentos invisíveis no mercado mundial são um tanto espasmódicos. São exatamente as datas que nos permitem perceber o que ocorreu no período histórico de janeiro de 2004-junho de 2005. Histórico? Que pretensão! Nem tanto. Desde 1999 ocorre no Brasil uma expansão inigualável da soja, que é repetida com toda sua intensidade na Argentina desde 2002. Isso para não falar do drama sócio-ecológico no Paraguai. Há uma série de razões para esta evolução. Procuramos desvendá-las gradativamente nas crônicas. Histórico? As crônicas iniciam-se no clima e euforia da expansão e dos preços superelevados no mercado mundial. Gradativamente o panorama muda: os chineses determinam cada vez mais as condições e negociações dos mercados mundiais de soja, aço e têxteis. Pode-se acompanhar esta euforia e este terror, esta obsessão e esta febre na seqüência de crônicas. É um quebra-cabeça, onde se tenta revelar as muitas dimensões desta planta sagrada chamada soja. Não conseguimos revelar tudo pois são ‘somente’ 45 textos. Soja é inesgotável. Poderiam ser escritos e acrescentados, tranqüilamente, mais 45 textos. Mas aí teríamos uma lista telefônica com milhares de dados e esta não é, exatamente, nossa intenção. Julgue por você mesmo e adentre, com Wervel e Fetraf, a calada da noite e os dias de soja.

Grelhados ou churrasco

Eu escrevo esta introdução no momento em que Flandres é afligida, já há três meses, por milhares de grelhas. Uma variante do consumo excessivo de carne no sul do Brasil, chamado de churrasco. Mesmo assim, Wervel optou por fazer o lançamento deste livro durante um festival de grelhados, por ocasião do evento anual ‘Portas Abertas’ de Dobbelhoeve, em Schilde. Nem é preciso explicar que este festival de grelhados não terá carne. Na esperança de, pelo exemplo, oferecer uma alternativa a esta moda que mantém os Países Baixos permanentemente imersos no cheiro de carne queimada.

É possível ser diferente, como em muitas áreas da vida (comunitária).

Luc Vankrunkelsven, Bruxelas, 2 de julho de 2005, Dia Internacional das Cooperativas

(1) Na Holanda surgiu uma análise muito cativante do rei dos polvos: Cargill, a desconhecida, obscura empresa ‘familiar’ que, no mundo todo, tem uma mão invisível em um número crescente de transações. Jan Paul Smit, em colaboração com Herman Verbeek, Duistere machten. Cargill en andere agro-concerns bedreigen de boeren, de wereld, ons eten. [Forças obscuras. Cargill e outros conglomerados agrícolas ameaçam os agricultores, o mundo, nossos alimentos] Agri & Cultuur, Amsterdam 2000. Pode-se fazer o ‘download’ do livro no site www.ddh.nl/duurzaam/landbouw

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