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As favelas de Nanterre

François LEGRIS

2005

Algumas datas

1950 : Necessidade de mão-de-obra para reconstruir o país, 1953 : Primeira favela de Nanterre, 1960/65 : As favelas atingem seu número máximo (14 mil), 1972 : Últimas favelas de Nanterre, 1961/62 : Construção dos loteamentos de trânsito, 1985 Demolição do último loteamento de trânsito (As Margaridas, 250 habitações)

Nanterre é uma cidade da periferia parisiense com mais de 80 mil habitantes.

A situação no período

A França promoveu, desde 1950 e durante muitos anos, a vinda de muitos imigrantes norte-africanos para servirem de mão-de-obra barata para os setores da construção e automobilístico. Esses imigrantes vinham de antigas colônias francesas.

A imigração norte-africana dos anos 1960 era basicamente de homens sozinhos. As empresas gerenciavam o trabalho e a moradia dessa mão-de-obra da maneira que queriam, e muito frequentemente abusavam de sua posição favorável.

Nos anos 1970 aproximadamente, uma lei permitiu que as famílias desses trabalhadores fossem morar na França. E assim, quando possível, eles trouxeram suas mulheres e filhos.

Portugueses, espanhóis e norte-africanos forneceram uma mão-de-obra abundante, muito pouco qualificada e barata. Aproveitando a liberdade de circulação que beneficiava até 1962 (fim da guerra da Argélia) os “franceses muçulmanos”, os imigrantes argelinos constituíram um grupo importante e cada vez maior. Eram 210 mil em 1954, 460 mil em 1964, e mais de 700 mil em 1975.

A crise dos anos 1970 impôs um termo brutal a esse fluxo de trabalhadores. A política de imigração visava, nessa época, o retorno ao país de origem. De atores do crescimento econômico, os imigrantes passaram a ser considerados a causa do desemprego generalizado. Ao mesmo tempo, o Estatuto dos Imigrantes variava de acordo com a conjuntura após 1962. Até 1968 a obtenção da carta de residente era automática. Em 1972 foi preciso ter um emprego na França. Após 1982 o imigrante se tornou “estrangeiro”.

Em 1964, 43% dos argelinos moravam em favelas, a de Nanterre, umas das 89 da região parisiense, abrigava 14 mil pessoas.

Charles de Gaulle, o então Presidente da República, exigiu a demolição dessas favelas. Um plano de eliminação das habitações insalubres levou à construção das cidades de trânsito, barracos de metal ou de cimento, previstos para serem provisórios, mas que perdurariam por anos até que todas as famílias fossem realocadas em uma habitação social.

A situação na favela

Em um primeiro momento, as favelas eram uma moradia provisória (o imigrante voltaria ao país de origem), depois tornaram-se o local em que os imigrantes argelinos, portugueses e marroquinos iam morar. Em seguida, os homens começaram a trazer suas mulheres e filhos.

Não havia condições mínimas de higiene, não tinha água corrente, exceto quando chovia e tudo virava um lamaçal. Era também um lugar onde a polícia agia brutalmente, onde havia incêndios, ratos e muitas outras dificuldades. Com o passar dos anos, os barracos se estruturaram, quer dizer, foram divididos em vários cômodos, entraram no mercado imobiliário informal, ruas foram abertas e o comércio se desenvolveu.

Na França, “a favela é para os árabes”, mesmo se trabalhadores franceses eram expulsos das cidades ditas burguesas e eram realocados em habitações precárias.

A favela era feita de barracos de ferro e madeira, e chamada pelos argelinos de “Chaâba”. Tinha apenas um banheiro, as ruas eram estreitas, sujas e cheias de lama e de lixo. Quase sempre havia um lixão nas proximidades.

As “casas” possuíam apenas um cômodo, eram insalubres e geralmente tinham camas, um fogão e uma mesa. As janelas se fechavam com barbantes. Para se lavarem, os moradores utilizavam bacias.

Havia poucos franceses nestas favelas, alguns casais de franceses e imigrantes. Nestes casos os franceses tornavam-se professores e davam aulas de francês.

Algumas pessoas de fora iam lá regularmente. Eram membros do PCF (Partido Comunista Francês), de extrema esquerda e/ou católicas. A resistência à ação violenta da polícia era muito difícil (a França estava em guerra com a Argélia). A FLN (Frente de Libertação Nacional) encontrava na favela seus membros e recursos financeiros.

Tudo era feito no anonimato e em segredo por medo das represálias.

O racismo já se fazia presente. Em abril de 1966, na pesquisa da revista Esprit, o argelino era considerado “dissimulado, preguiçoso, cruel, pervertido e sujo”. Isso levava a um comportamento de rejeição por grande parte da população.

A crise da moradia na França levou o governo a construir habitações sociais em massa, construídas em grande parte pelos moradores das favelas. Esses operários tiveram assim um contato com os sindicatos. Durante muitos anos, eles participaram da construção dos bairros de habitação social sem tirar benefícios disso.

A solidariedade da população, pelo menos no Petit-Nanterre, se manifestava sobretudo durante as ações da polícia e após os inúmeros incêndios. As famílias eram alojadas em alojamentos municipais. O prefeito da época, Raymond Barbet, visitava esses locais sem qualquer resistência a ele. Havia também um médico comunista (o único que aceitou esse trabalho) que visitava regularmente estas famílias.

As construções de habitações

No bairro Petit-Nanterre, as construções de HLM começaram em 1948 com sessenta habitações erguidas pelos próprios moradores, o loteamento de “Castors”, sobre um terreno vazio. Em volta das favelas, 1.200 habitações foram construídas no loteamento “des Pâquerettes”, pelo órgão municipal. Foi construído em seguida o loteamento “des Canibouts”, com 660 moradias em 1964.

Hoje o bairro apresenta 85% de habitações sociais (a média da cidade é de 55%), 2.500 habitações sociais, na maioria construídos e geridos pelo Órgão Público HLM.

Foram necessários quase quarenta anos para eliminar totalmente as favelas de Nanterre e realocar todos os habitantes, nem todos na mesma cidade.

A urgência de construção desses loteamentos não permitiu que fossem feitos com a mínima qualidade. Após vinte anos, alguns prédios já estão degradados. Por outro lado, a crise econômica continua atingindo duramente essa população (30% da população ativa do bairro está hoje desempregada).

De 1982 a 1986 uma importante mobilização dos habitantes auxiliada pelo PCF e pelo prefeito permitiu a obtenção de amplas reformas (melhoria de fachadas, aumento das cozinhas e das salas).

Vinte anos depois, um projeto urbano e social foi elaborado com os habitantes. Está em fase de concretização de acordo com a lei de coesão social e de renovação urbana (Lei Borloo). O projeto de renovação urbana e social (PRUS) do bairro Petit-Nanterre, elaborado há alguns anos com os habitantes, é um programa geral de melhoramento da qualidade de vida do bairro. O programa prevê demolições, reconstruções, permitindo assim que sejam criadas habitações diversificadas em Petit-Nanterre e que sejam construídas moradias sociais no centro da cidade, no bairro “La Boule”. Trezentos e cinqüenta moradias que fazem parte desse programa serão destruídas. Trezentos e cinqüenta serão construídas, e um terço será destinada à venda para pessoas de baixa renda. Os habitantes que desejam serão realocados no mesmo bairro, a manutenção dos preços dos aluguéis foi assegurada.

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