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Passou a euforia?

Luc Vankrunkelsven

08 / 2004

Hoje a ‘Folha de São Paulo’ publicou uma página inteira sobre nosso tema predileto: soja. Título: “PREÇOS: Soja cai e o Brasil perde competitividade”.

Parece que agora vai acontecer o que eu, há muito tempo, já previa: a história do café do século XX repete-se na variante soja. Preços em queda, com um pico ocasional de preços bons.

Chineses espertos

Agosto sempre é um mês de temerosa expectativa: “De quanto será a colheita de soja dos agricultores nos EUA?” Neste ano a expectativa é ainda mais nervosa/tensa. Enquanto cada vez mais caminhonetes 4 x 4 aumentam a insegurança nas ruas (aqui eles não param na faixa de pedestres), minha atenção é despertada pela quantidade de pessoas que compram a ‘Folha de São Paulo’ aqui em Guarapuava. É que este jornal veicula regularmente as notícias mais ‘quentes’ sobre soja.

Os nervos estão tensos, porque a ‘Ferrugem Asiática’ – no início do ano – já jogou um primeiro balde de água fria no entusiasmo. Segundo os cálculos, na última safra, os produtores já gastaram R$ 3 bilhões adicionais na luta contra este fungo. É como se a Ásia não enviasse somente fungos, mas também jogasse areia nas engrenagens. Quando, em março de 2004, a soja alcançou um pico de US$ 18,50 por saca (1) no porto de Paranaguá, os chineses começaram a criar caso. De repente, navios brasileiros foram recusados em maio-junho, por causa de contaminação. A intenção principal era fazer baixar os elevados preços, e nisso os chineses (2) foram razoavelmente bem-sucedidos: em junho de 2004, o preço da saca só alcançava US$ 15,20 no mesmo porto. Espera-se que, em março de 2005, o preço seja US$ 12.

O excesso de produção anunciado

Posso citar mais alguns números? Números que começam a causar preocupação por aqui. A América do Sul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) ultrapassará pela primeira vez o patamar mágico das 100 milhões de toneladas. Para a safra de 2004-05, espera-se uma colheita de 109 milhões de toneladas. O Brasil com 66 milhões de toneladas; a Argentina com 36 milhões de toneladas; o Paraguai com 5 milhões de toneladas. O Brasil e a Argentina, juntos, pretendem plantar 37 milhões de hectares, ou seja, 150% a mais do que em 1990-1991. Agora, final de agosto, os EUA esperam colher 78,3 milhões de toneladas, número próximo do ano recorde, 2001-02, com 78,6 milhões de toneladas. Se ficar abaixo dos 78 milhões de toneladas, o pessoal aqui acredita que a queda nos preços não será tão dramática. Os agricultores ainda podem esperar até final de agosto para decidir quanto e o que irão plantar. No Mato Grosso eles podem, rapidamente, mudar para o plantio de algodão. Há um ano, os preços para esta cultura mágica também estão muito acima da média. No Paraná, a mudança é mais complicada. A ‘Folha’ ainda será bastante vendida nas próximas semanas! A própria China, que estragou a festa e jogou areia nas engrenagens das colhedeiras, espera uma produção recorde de 18 milhões de toneladas para a safra 2004-05.

Tais safras recordes elevam a produção mundial a 223 milhões de toneladas e ainda nem falamos dos pequenos agricultores tailandeses, que podem colher três safras de soja por ano. Mas, desde a abertura dos mercados pactuada na ‘Rodada do Uruguai’ (1986-1994), a partir de 1995, seu mercado é ‘inundado’ pela soja barata, subsidiada, dos EUA. Uma produção de 223 milhões de toneladas é 18% a mais do que as safras anteriores, e o consumo mundial é de ‘apenas’ 209 milhões de toneladas, com um crescimento de ‘apenas’ 9% ao ano. Os estoques mundiais que, normalmente, são suficientes para dois meses; agora já podem durar três. Nem precisaria tanto para ficar nervoso. Afinal, é preciso pagar as prestações da 4 x 4 reluzente e as caríssimas colhedeiras. E o que mais? Sim, os custos ficarão muito acima daqueles de 2003. O adubo químico, por exemplo, está 30% a 35% mais caro e seu preço não cairá tão rápido quanto o da soja. Isso para não falar dos agrotóxicos e dos ‘royalties’ que agora deverão ser pagos à Monsanto pela soja transgênica.

Em geral, é em agosto que se combina a maioria dos contratos para março do ano subseqüente. Na Bolsa de Chicago, o preço dos contratos para março de 2005 recuou 45%. Em agosto de 2003, 35% da colheita de soja brasileira já estava vendida antes mesmo de ser plantada. No momento, este número mal chega a 5%.

Descanso para a floresta?

Mas este nervosismo em torno dos computadores e o suor frio provocado pelas calculadoras talvez traga um descanso na ‘fronteira agrícola’. Com preços tão baixos, o desmatamento e a conversão de novas terras torna-se um negócio de risco. Será que depois de dois anos de desmatamentos da ordem de 25 mil km2 na região amazônica poderemos retornar ao ritmo original? Ou seja, aos 18 mil km2 por ano ‘habituais’, que representam – imagine você – somente a metade da superfície da Bélgica. Deve ser possível.

Quando o preço, nos Estados Unidos, fica abaixo de US$ 5 por bushel (2), é o contribuinte norte-americano que paga a diferença. Os brasileiros realmente parecem perder competitividade, apesar do baixo preço de suas terras e de sua mão-de-obra barata. Será que, depois de quatro anos de euforia, a soja terá o mesmo destino do café e de tantas outras ‘commodities’?

Será que é por isso que, no final de julho, o Ministro das Relações Exteriores esbravejou tanto em Genebra?

(1) No Brasil, os cálculos são feitos – preferencialmente – em sacas de 60 kg, nos EUA eles calculam em bushel (= 27,2 kg).
(2) A crescente importância da China na história da soja é ilustrada pelos seguintes números: em 1995-96, a participação da China no mercado mundial de soja era de 2,6%; em 2000-01 era de 24,9%, para 2004-05, espera-se uma participação de 35,5%.

Mots-clés

soja, agriculture d’exportation, prix des produits agricoles et alimentaires, concurrence commerciale


, Brésil, Paraná

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

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