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dialogues, propositions, histoires pour une citoyenneté mondiale

Embalagens derivadas de soja

Luc Vankrunkelsven

03 / 2004

A partir de dois debates na emissora de rádio Klara, seguiu-se uma intensa troca de correspondência com um representante da indústria de embalagens. Como não se trata de um assunto particular, mas afeta a nós consumidores no dia-a-dia, reproduzimos a troca de cartas na forma desta crônica.

Os dois programas de rádio com Jean-Pierre Rondas ainda podem ser ouvidos em ‘áudio’ no site www.klara.be/, ‘Rondas’ 14/03/04 e 21/03/04; retransmitidos nos dias 25/06/05 e 02/07/05.

Lá vamos nós:

1.

“Ouvi alguns trechos de seu debate com Rondas, na rádio KLARA.

Com relação ao mesmo, tenho a seguinte pergunta:

Soja também serve de base para novos materiais biodegradáveis.

Um saco de lixo de polietileno pode, agora, ser substituído por um saco um pouco mais resistente, produzido a partir de… soja, e este ainda pode ser utilizado para formar composto, junto com outros resíduos de jardinagem e da cozinha.

A mesma película de soja pode servir de embalagem para frutas e verduras.

Pergunta: do seu ponto de vista, há alguma coisa de errado nisso

a. em relação à matéria-prima (produto agrícola ao invés de petróleo)?

b. em relação ao uso (embalagens biodegradáveis)?

Aguardo sua resposta.

Noël Vanderplaetse”

2.

“Eu realmente acho que há algo errado e acho que você também sabe disso:

a. É correto utilizar culturas alimentícias para produção em massa de embalagens e ‘plásticos’, se para isso é necessário derrubar cada vez mais florestas e ainda não se conseguiu fornecer alimentos básicos suficientes para as pessoas?

b. Não há nada de errado quanto ao uso em si. O problema é que estamos na trilha errada com os objetivos da agricultura, que estão em conflito com os interesses econômicos, ecológicos, sociais e o objetivo de autonomia da agricultura. Este é um debate fundamental que envolve a filosofia das ciências agrícolas e sociais. E que se repete sempre:

a. O que há de errado com golden rice [arroz dourado]?

b. O que há de errado com o biocombustível?

c. O que há de errado com o milho Bt [milho transgênico] e a resistência a herbicidas?

d. O que há de errado no uso de soja para ração animal?

O que há de errado?

À primeira vista, nada e mesmo assim tudo dá errado e entramos agora numa crise fundamental da agricultura com impacto em todas as áreas sociais. Será que as questões não deveriam ser: ‘O que há de errado com nossas ciências agrícolas; com nossa democracia; com nossa política?’

A questão agora é como lidamos com isso. Temos a coragem de fazer as perguntas corretas que exigem respostas holísticas das ciências agrícolas para, de maneira preventiva, tornar possível a condução política e administrativa da sociedade?

Eu acho que este é o ponto central do debate para os próximos dez anos, para chegarmos a uma mudança de rumo na agricultura e na sociedade.

Louis De Bruyn, presidente Wervel”

3.

“Agradeço a sua simpática resposta.

Percebo que minha pergunta já foi formulada muitas vezes ao senhor e que, suspirando, o senhor deu sua resposta clássica, sabendo que esta somente poderá ser compreendida por quem estuda e aceita sua visão de mundo.

Mas ainda quero acrescentar o seguinte:

Para mim, embalagens são elementos essenciais para fazer com que alimentos básicos cheguem às pessoas, exceto – é claro – se o agricultor produzir somente para sua subsistência e de seus vizinhos imediatos.

Cordiais saudações,

Noël Vanderplaetse”

4.

“Prezado senhor Vanderplaetse,

Agradeço-lhe novamente por sua reação. Luc Vankrunkelsven me pediu ‘minha’ opinião sobre sua pergunta. Quero portanto destacar que esta resposta compromete só a mim e mais ninguém.

Sem querer entrar numa polêmica interminável, quero expor algumas considerações adicionais, porque o debate sobre este tema não se encerra rapidamente. Para mim, a questão principal é que devemos utilizar, de maneira racional e consciente, os recursos do planeta Terra e, portanto, também as embalagens. É por isso que devemos nos perguntar (enquanto consumidores, mas também como formuladores de políticas) se tudo o que é possível também deve ser permitido. Assim como controlamos o consumo de energia do carro e das casas, também devemos usar racionalmente as matérias-primas, como um chefe-de-família zeloso e econômico. E isto nem sempre ocorre (ou ocorreu). Por exemplo: o excesso de produção de esterco foi previsto tanto pela Universidade de Wageningen quanto pela Universidade Nacional de Gent. Mesmo assim, isto não foi levado em consideração na expansão de nosso sistema agrícola e pecuário. Optou-se, conscientemente, pela adoção de determinado rumo porque somente um objetivo era prioritário – especificamente, a racionalização econômica de nosso sistema de produção agrícola, enquanto as demais condições de contorno em relação ao impacto nos países do Terceiro Mundo, conseqüências ecológicas, conseqüências sociais para agricultor(es)(as) e conseqüências para o bem-estar animal não foram levadas em consideração, nem aqui nem em lugar nenhum. Que isto tem um impacto ético também está claro (para mim):

  • Lucro obtido às custas da integridade ecológica é roubo (também diretamente, e não só do ponto de vista ético);

  • Lucro obtido às custas da coesão social da sociedade é roubo e todos nós pagamos o preço da desintegração social e, com ele, adubamos o solo da discórdia e das guerras;

  • Lucro obtido às custas da autonomia das regiões em relação à produção de alimentos é roubo. As maiores prioridades de uma região devem ser: ser o mais independente possível e produzir seus próprios alimentos a partir de um envolvimento direto dos produtores em seu próprio ambiente e sua própria comunidade.

A expansão da soja deixa muito a desejar nestes três pontos. Antes de buscar a solução na embalagem de verduras com ‘plástico’ de soja, devemos descobrir primeiro como reduzir as embalagens. Com isso não queremos dizer que não há espaço para tais materiais, mas que seu uso deve ser bem pensado e ponderado, junto com uma visão de economia de recursos e pesquisa das melhores soluções possíveis.

Estamos diante do desafio de encontrar um suporte filosófico para a ciência e a sociedade que leve em consideração os desafios de nosso tempo. Meu sentimento é (e certamente não estou só nisso) de que a crise na qual nos encontramos tem uma abrangência global e que a ciência que nos move está, de maneira geral, buscando as respostas de forma fragmentada. Assim como a ciência crítica requer uma sociedade crítica, assim a democracia também requer uma ciência crítica. É para isto que eu (e Wervel) quero(emos) contribuir, sem questionar seu direito de ter sua própria opinião.

Cordiais saudações,

Louis De Bruyn”

5.

“Prezado senhor Vanderplaetse,

Deixei passar alguns dias antes de responder, por motivo de afastamento, mas também porque observei que Louis De Bruyn já tomou a iniciativa de enviar uma resposta. A resposta é realmente de Louis, mas eu também reconheço um pouco a minha posição nela.

Nem Wervel, nem eu, queremos ser ‘fundamentalistas’. A agricultura sempre teve como objetivo produzir principalmente alimentos, mas também vestuário, tabaco, etc. Não há nada contra isso, mas alimentos são uma necessidade básica, assim como é a água. Entre estes há uma ligação importante. Cerca de 70% da água potável do mundo é destinada a nosso sistema de agricultura intensiva, voltada para exportação. Este sistema infernal envolve muita terra, água e uma quantidade absurda de energia. Se a ocupação do solo e o desperdício de água são pontos cegos, a questão energética representa – no dilaceramento mundial da história agrícola – um ponto cego ainda maior.

Nos dois debates no rádio, eu abordei o conflito fundamental entre dois modelos agrícolas. Por sua vez, estes modelos andam de mãos dadas com visões e práticas de vida conflitantes nas cidades. Não levará mais do que 20 anos para que a maioria da população mundial esteja morando em megacidades. Então serão necessárias muito mais embalagens, já que a distância entre o produtor e o consumidor, aparentemente, tende a ficar ainda maior. Quanto maior a distância, tanto maior o lucro que se pode obter na intermediação.

Eu acho, portanto, que devemos situar sua pergunta e as tentativas de resposta num quadro global, como Louis De Bruyn já havia feito. À primeira vista não há nada errado, é até muito bom que se produza ‘plástico’ biodegradável a partir de soja, batatas, beterrabas açucareiras, etc. Poderíamos seguir neste raciocínio e dizer: é, desde que este seja separado dos sacos plásticos feitos (‘diretamente’) do petróleo e seja efetivamente reciclado.

Mas, mesmo assim… Eu penso também que devemos poder continuar a formular as perguntas fundamentais sobre o sistema em si. Para acrescentar mais uma à relação feita por Louis: seria mais correto, só porque foi transformado em composto e retornado ao ciclo…? Qual ciclo? A partir do final do século XIX, teve início o fluxo de nitrogênio do Hemisfério Sul para o Norte, iniciando-se com o esterco de aves [guano], do Chile, e desembocando, atualmente, no ‘ouro verde’ do século XXI: soja. Mesmo que transformássemos as embalagens feitas com soja em composto, a drenagem fundamental do Sul para o Norte não foi estancada.

Enquanto refletia sobre a resposta, eu pensei – inicialmente – em remetê-lo à leitura de minhas crônicas sobre soja no site www.wervel.be/. Elas tratam de diversos aspectos do drama da soja: soja e ecologia, soja e direitos humanos, soja e OGMs … e ‘biodiesel de soja’. Esta última crônica aproxima-se de sua pergunta: ‘plástico’/biodiesel e soja são, para mim, a mesma história.

Posso convidá-lo a imprimir este texto do site? Se o senhor substituir ‘biodiesel’ por ‘plástico’, encontrará boa parte de minha resposta (ainda incompleta).

Por fim, o senhor encontrará lá a última crônica sobre soja, escrita deste lado do oceano, após o dia no Parlamento Flamengo de DP 21 (‘Produção’ animal no século XXI). Lá eu tive a desagradável sensação de que as questões fundamentais são minimizadas pelos ‘stakeholders’ [interessados] da Federação da Agricultura, indústrias de fornecedores de insumos, embalagens, distribuição, governo.

Por fim, o seguinte: na Holanda está se tentando reunir os diversos ‘stakeholders’ em soja em torno de uma mesa de diálogo e negociação. Inclusive a indústria.

Talvez pudéssemos repetir este exercício em Flandres, sem cair na armadilha da DP 21, de modo que as questões fundamentais sejam reduzidas a, por exemplo, ‘plástico’ biodegradável.

De todo modo, agradeço sua reação. Talvez possamos nos encontrar um dia para dar continuidade a esta conversa.

Será que um outro mundo realmente é possível?

Cordiais saudações,

Mots-clés

influence du marché sur l’agriculture, soja, agriculture, monoculture


, Brésil

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Fetraf (Fédération des travailleurs de l’agriculture familiale) - Rua das Acácias, 318-D, Chapecó, SC, BRASIL 89814-230 - Telefone: 49-3329-3340/3329-8987 - Fax: 49-3329-3340 - Brésil - www.fetrafsul.org.br - fetrafsul (@) fetrafsul.org.br

Wervel (Werkgroep voor een rechtvaardige en verantwoorde landbouw [Groupe de travail pour une agriculture juste et durable]) - Vooruitgangstraat 333/9a - 1030 Brussel, BELGIQUE - Tel: 02-203.60.29 - Belgique - www.wervel.be - info (@) wervel.be

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