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Iraque, soja, Pinus e Eucalyptus

Luc Vankrunkelsven

07 / 2004

O que soja tem a ver com o Iraque? Nada.

O que a soja tem a ver com o pinheiro americano – Pinus – e com o eucalipto? Muito.

O que o pinheiro americano tem a ver com o Iraque? Mais ainda.

Agricultura, pesca e reflorestamento.

Se a soja é o ‘carro-chefe’ da agricultura capitalista de exportação, então o pinus e o eucalipto são os símbolos do reflorestamento capitalista  (1). Ou, se você preferir, dos deuses ‘Capitalismo’ e ‘Mercado Mundial’. Em si, a soja é uma planta extraordinária, como o pinus e o eucalipto são árvores extraordinárias. Além disso, ambas espécies possuem muitas propriedades medicinais secretas. Por isso, são utilizadas por muitos povos para fins medicinais e em rituais.

Sim, eu posso até enxergar a beleza de uma alameda cercada de eucaliptos ou uma árvore isolada de pinus. O problema é o elevado grau de homogeneidade nos plantios. Assim como o capitalismo, globalmente, invade, devagar e sempre (?), todos os domínios de vida, assim o pinus e o eucalipto ocupam a biodiversidade das florestas e savanas (campos). Enquanto, no Paraná, a araucária gosta de ocupar a floresta junto com a imbuia e mais uma dezena de outras espécies, arbustos, borboletas, insetos e numerosas aves, mamíferos, répteis, etc, o pinus tem a tendência de, após algumas décadas, homogeneizar uma região. Graças a seu crescimento rápido e reto – ou seja, lucro rápido – ele é amplamente empregado nos programas de reflorestamento. Trata-se, na verdade, de uma ‘rearborização’. Não se trata de uma floresta viva. Depois de 12 anos, pode-se fazer a colheita. Atualmente, a renda por hectare já seria maior do que a da produção anual de soja. Conseqüência? As terras de fácil mecanização foram cobertas, nos últimos 30 anos, com soja. Agora chegou a vez dos solos mais ácidos, geralmente de relevo mais acidentado e com afloramentos de rochas. Grandes empresas, freqüentemente multinacionais, compram essas terras e as cobrem com plantios de pinus. Mas, mesmo sem plantio, o pinus se espalha e expulsa outras espécies.

Nas regiões onde, desde o século XIX (ou até antes), houve colonização (Rio Grande do Sul, São Paulo, Espírito Santo) e onde o capitalismo ocupa a vida de maneira mais intensa, é onde hoje se encontra a menor biodiversidade. Em regiões recém-desbravadas, os plantios de pinus têm início ao longo das rodovias, próximos a postos policiais e de combustível. Em seguida, a espécie se espalha rapidamente pela disseminação de sementes pelo vento. O eucalipto e – cada vez mais – o pinus dominam a paisagem. Se não houver nenhuma intervenção, dentro de 30 anos regiões inteiras terão uma paisagem totalmente diferente. Dentro de cem anos restarão somente desertos verdes de soja e florestas McDonalds com duas espécies de árvores.

Em Flandres e na Holanda, quem dá o tom é o choupo canadense (Populus x canadensis, híbrido de P. nigra x P. deltoides). Mas antes do choupo canadense havia em nossa região o Pinus sylvestris L. Em cerca de 1540, ele foi plantado pela primeira vez em Diest. Na Holanda há, atualmente, programas para erradicar estes reflorestamentos homogêneos de pinus, dos séculos XIX e XX, e deixar que a natureza restaure a biodiversidade. Será que daqui a cem anos os assim chamados ‘países em desenvolvimento’ terão que adotar medidas drásticas similares?

‘Greenwashing’/’Gatopardismo Ambiental’  (2)

O irmão australiano, o eucalipto, também é um glutão de crescimento rápido. Uma árvore adulta pode absorver, facilmente, 700 litros de água por dia. Nos estados de São Paulo e Espírito Santo, há enormes plantios homogêneos de eucalipto para a indústria de celulose e papel. Como, ao longo de quilômetros, só se encontra uma espécie de árvore, as áreas reflorestadas exigem muita aplicação de agrotóxicos. Caso contrário, doenças e insetos destruiriam a ‘colheita’. Não há necessidade de herbicidas para controlar o sub-bosque. Disso o próprio eucalipto se encarrega: nesses plantios homogêneos não se observa nem uma folha de gramínea, é óbvio que outras espécies arbóreas não têm nenhuma chance.

Quando os plantios homogêneos de pinus são colhidos, a casca é removida ainda na floresta. Para evitar apodrecimento, as extremidades dos troncos são mergulhadas em um forte veneno à base de metais pesados. Enquanto, durante a colheita, ocorre a exploração da mão-de-obra barata, a serragem das madeireiras é usada na avicultura. Esterco e serragem se misturam e são aplicados nas lavouras. Isto se tornará um problema, principalmente na horticultura. Metais pesados contaminam os solos, os lençóis freáticos e os alimentos. Portanto, é simultaneamente um problema ambiental e social. O cúmulo é que tais florestas nos ‘países em desenvolvimento’ são emprestadas por países e empresas ocidentais para capturar CO2. Assim eles podem, ao mesmo tempo, cumprir suas obrigações em relação ao ‘efeito estufa’ e manter ou aumentar as emissões de sua crescente indústria. O governo belga participa ativamente deste programa de ‘compra de ar puro’. Nem me fale de ‘capitalismo maquiado’ e ‘medidas vazias’!

Aqui no Paraná, se você for um jogador esperto, você pode ganhar três vezes com o pinus: você pode receber um subsídio particular para o plantio, se você plantar – no lugar daquele que cortou as árvores – oito mudas por metro cúbico de madeira cortada; você recebe dinheiro de países ocidentais que querem comprar créditos de carbono; você colhe depois de 12 anos e reinicia o ciclo.

{Enquanto isso, os Estados Unidos continuam consumindo 25% de todos os combustíveis fósseis disponíveis.

Enquanto isso, acumulam-se estudos demonstrando que – devido ao efeito estufa – a produção mundial de alimentos diminui e que, além disso, condições climáticas cada vez mais imprevisíveis ameaçam ainda mais a agricultura.

Enquanto isso… suas árvores para papel são mais fortes do que o trigo para o pão. Eles resistem aos vendavais e suportam sem problemas os períodos de estiagem. São, portanto, um investimento seguro.}

E o que é que o pinus tem a ver com o Iraque?

Bem, nos últimos anos, os Estados Unidos da América começaram a importar em grande escala a madeira do Paraná para… a reconstrução do Iraque. Os próprios EUA estão tomados por uma febre de construção civil, mas a destruição do Iraque também parece favorecer as grandes construtoras por trás de Bush. Agora que a safra de soja está colhida, a exportação de madeira – principalmente produtos feitos com pinus – é a segunda fonte de ingressos que faz com que a balança comercial se mantenha positiva. O Paraná é responsável por 39% do todos os produtos de madeira (beneficiada, principalmente na forma de chapas de compensado) exportados pelo Brasil. A participação do Paraná aumentou em 47% nas vendas para os EUA. Nos primeiros cinco meses do ano, foram negociados US$ 1,067 bilhão, dos quais 40% para os EUA. Em 2004, o Paraná espera exportar produtos de madeira no valor de US$ 1 bilhão. Uma fábrica aqui em Ponta Grossa vendeu, nos últimos meses, 20 vezes mais madeira para os EUA do que o normal. A caixa registradora está cheia porque, devido à enorme demanda, os preços no mercado internacional também subiram.

Outros compradores importantes são o Reino Unido e… a Bélgica. É, a Bélgica, mesmo que nosso país não tenha nenhuma participação política na guerra no Iraque. Eu acho que a ligação deve ser buscada junto aos três herdeiros da outrora historicamente importante cultura do linho na Flandres Ocidental [West Vlaanderen]. O cultivo e as indústrias do linho definharam mas, desde a década de 60 do século XX, transformaram-se na: indústria de ração animal (entre outros, com as importações de soja do Brasil; graças à concentração de poder das empresas que operam no sistema de produção integrada, 2 milhões de suínos concentram-se nas granjas em Flandres Ocidental), na fábrica do mercador de tapetes De Clerck (que também tem uma fábrica em Ponta Grossa, www.beaulieu.com.br) e a produção de chapas de compensado (resíduo do linho mas, cada vez mais, principalmente pinus). Os três ramos da indústria têm, portanto, suas raízes (ou seriam suas garras?) no Brasil.

Empobrecimento da (agro)biodiversidade

O que a soja, o pinus e o eucalipto têm em comum é que empobrecem a biodiversidade e a agrobiodiversidade. Uma para ração animal, óleo comestível e, dentro em breve, biodiesel para caminhões, ônibus e trens. Os outros fornecem celulose, papel e uma grande gama de produtos derivados de madeira. Os metais pesados encontrados nos agrotóxicos utilizados na monocultura intensiva da soja são os mesmos que – via floresta de pinus e horticultura – contaminam os lençóis freáticos. Em todo o mundo, as monoculturas anuais representam um duplo estímulo ao corte raso e ao desmatamento. Por um lado, corta-se a floresta para plantar, por exemplo, soja. Por outro lado, os baixos preços por estas

‘commodities’ levam a mais desmatamento, com a desculpa de que é necessário compensar a perda nos ingressos.

O que mais eles têm em comum? A homogeneidade e monocultura podem ser substituídas, parcialmente, por uma das espécies agrícolas mais antigas. Especificamente, pelo cânhamo. Depois da soja, o cânhamo tem o maior teor de proteínas. E, na produção de papel, o cânhamo concorre de igual para igual com os reflorestamentos homogêneos. Uma contribuição interessante de Jan Evert de Groot ‘Heeft Hennepvezel nog toekomst in Nederland?’ [A fibra de cânhamo ainda tem futuro na Holanda?’] desperta o entusiasmo de qualquer um por esta alternativa. Também na França, Suíça, Canadá e nos Estados Unidos, o interesse começa a crescer. É só digitar ‘Chanvre’ ou ‘Hemp’ no site de buscas Google e um novo mundo se abrirá para você.

Ainda há vida depois da soja e do pinus?

Aqui e ali estão ocorrendo algumas conversões. A natureza nos dá uma mãozinha. Há alguns anos, a ferrugem asiática castiga as monoculturas de soja. Um primata, o macaco-prego, está atacando as plantações de pinus. Como seu habitat diminuiu muito e ele não encontra mais os frutos necessários para sua alimentação, ele está recorrendo às mudas de pinus.

É como se a ferrugem asiática e o macaco-prego estivessem reivindicando por restauração. Pela volta da (agro)biodiversidade.

 

 

(1) Assim como há um conflito entre dois modelos agrícolas e dois modelos de pesca, também há conflito entre dois modelos de silvicultura. Simultaneamente com a Revolução Verde que, no início da década de 70, impôs a monocultura da soja, o governo brasileiro deu subsídios para o plantio de pinus e eucalipto. Os plantios homogêneos destas duas espécies exóticas são, portanto, parte do Paradigma da Revolução Verde. Os subsídios permaneceram até o início a década de 80. Entre 2003 e 2004, foram exportados – pelo Brasil – produtos de madeira beneficiada de pinus no valor de US$ 5,75 bilhões, enquanto todo o complexo soja foi responsável por US$ 8,76 bilhões. Em 2003, o Brasil não conseguiu atender à demanda crescente de matéria-prima de pinus. Faltaram 11,3 milhões de m3 de pinus para garantir a produção de chapas de compensado e outros materiais. A participação do Paraná neste ‘déficit’ é de 6,6 milhões de m3. Não obstante, este estado tem 605 mil hectares plantados com pinus, 33% da área plantada no Brasil com esta espécie e 12% de todo o, assim chamado, reflorestamento no país. Para 2020, está previsto um déficit de 27 milhões de m3. No mercado mundial são comercializados US$ 132 bilhões de madeira beneficiada. É uma das dez maiores atividades comerciais deste planeta. O passado colonial continua tendo reflexos no sistema tributário: produtos industrializados têm tributação menor do que alimentos. O enorme volume de exportações rende, proporcionalmente, poucos ingressos para o estado. Do total de impostos arrecadados, somente 2% são originários das exportações. O governo Lula reduziu, em julho de 2004, os impostos sobre alimentos da cesta básica e sobre fertilizantes/agrotóxicos para estas culturas.
(2) O pesquisador ambiental Roberto Guimarães criou uma feliz expressão – o ‘Gatopardismo Pós-Moderno’ – para mostrar os motivos pelos quais todos concordam que a sustentabilidade pode ser a salvação do planeta mas, na hora de substituir a ‘Economia Predadora’ pelo ‘Desenvolvimento Sustentável’, a maioria desconversa e apresenta o argumento surrado de sempre: “precisamos produzir mais para acabar com a fome do mundo”. www.sema.ms.gov.br/ler.php?id=245.Ou, como dizia um personagem do romance ‘O Leopardo’ (‘Il Gattopardo’, em italiano), de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957): “Às vezes é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique como está.” Em espanhol, também se usa ‘gatoverdismo’ – propor pequenas mudanças, trocando seis por meia dúzia.

Mots-clés

monoculture, agriculture d’exportation, influence du marché sur l’agriculture, soja, dégradation de l’environnement

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Livre

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