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Soja e… alumínio

Luc Vankrunkelsven

08 / 2004

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Soja e… alumínio

No Brasil, a superfície da terra possui, em geral, a cor marrom-avermelhada até vermelho-fogo. Enquanto na Europa é o conteúdo de ferro que tende a ser elevado, no Brasil isto ocorre com o percentual de alumínio (Al). Isto não é um problema em si, exceto se o solo for muito ácido. Neste caso, é liberado muito alumínio, tóxico para algumas culturas. A acidez ideal (pH) é entre 6 e 7, e se o pH for menor, pode ocorrer liberação de alumínio. É por isso que a agricultura patronal de exportação precisa acrescentar tanto calcário a seus solos quando estes possuem pH menor que 6. O elevado preço da soja nos últimos anos faz com que mesmo solos extremamente ácidos sejam convertidos em áreas agrícolas. Durante séculos serviram como pastagem. Agora, o preço de custo do calcário e da energia não consegue mais se contrapor aos grandes lucros do Ouro Verde. A agricultura familiar, principalmente aquela que segue os princípios da agroecologia, soluciona este problema aplicando outras técnicas: muita rotação de culturas, adubação verde, criação de gado no sistema silvo-pastoril, etc. Quando se aumenta o teor de matéria orgânica do solo, o Al permanece fixado, do mesmo modo que permanece fixado em solos argilosos com pH entre 6 e 7.

Carajás e os benefícios do alumínio

O fato de haver muito alumínio no solo não quer dizer que este metal leve seja encontrado em qualquer lugar. Não, para isso é preciso ir à região amazônica. Em Carajás, por exemplo. Nas jazidas, o minério vermelho de bauxita é extraído. Ao contrário do minério de ferro, a matéria-prima é processada no local para obtenção do alumínio. A produção é uma atividade muito poluidora e requer muita energia. 1 % de todo consumo de energia no mundo é destinado à produção deste metal leve. Muitos projetos hidroelétricos com conseqüências sociais e ecológicas devastadoras  (1) estão aqui a serviço dessa indústria. Pode-se dizer, sem medo de errar, que nas regiões de mineração da Índia e do Brasil, os grandes projetos hidrelétricos estão quase integralmente a serviço da produção de alumínio ou outra atividade de mineração/processamento. Todo o processo para transformar a bauxita numa latinha de Coca-Cola requer dez vezes mais energia do que a produção da Coca-Cola propriamente dita. Além disso, durante a eletrólise são liberados hidrocarbonetos fluoretados e fluoretos. Na propaganda, o alumínio é apresentado como “metal verde”, mas a lama vermelha, as cinzas, a poeira e as dioxinas podem ser chamadas de desastrosas. É por isso que as multinacionais preferem produzir seu “metal verde” em regiões distantes; junto aos povos indígenas. Aliás, é lá que se encontram as maiores jazidas de bauxita.

Felizmente, a reciclagem no Brasil está em franca ascensão; parte devido a considerações ecológicas mas, principalmente, devido à pobreza. Até a classe média, empobrecida, está começando a reciclar latinhas. Nos últimos anos surgiu em todo o país um ramo da atividade informal exercida por famílias que, com carrinhos, percorrem as cidades para ‘garimpar’ nas latas de lixo. Plástico, papelão, papel: tudo é levado e separado. Mas as latinhas de alumínio são as que rendem mais. Se, durante um show de música, você jogar distraidamente uma latinha no chão, ela não permanece lá nem por um minuto. Como formigas braços se movem entre a multidão em busca desse lixo valioso. A combinação de exclusão social com baixos salários e crescente consciência ambiental compõe o curioso coquetel que coloca o Brasil em primeiro lugar na reciclagem de latinhas de alumínio. Os brasileiros já ultrapassaram os 90% e estão chegando aos 98%. Afinal, sempre se perde uma ou outra. A enorme vantagem deste tipo de reciclagem é que a indústria pode converter 100% dessa matéria-prima no mesmo material. Por exemplo, latinhas. Ou uma bicicleta: para esta são necessárias 670 latinhas. Com garrafas de “PET” é possível fabricar postes ou roupas, mas não se pode produzir embalagens que entrarão em contato com alimentos.

Os ganhos ecológicos são enormes, já que para cada tonelada de alumínio reciclado deixa de ser necessária a extração e o processamento de 5 toneladas de bauxita. A reciclagem deste metal economiza 95% da energia que, de outra maneira, seria necessária para produzir alumínio a partir do minério de bauxita.

Neste plano, os norte-americanos têm muito para aprender com os brasileiros. Se os ianques tivessem reciclado todas as 7 milhões de toneladas de latinhas que jogaram fora entre 1990 e 2000, seria possível fabricar hoje 316 mil Boeing’s 737. Isto representa 25 vezes mais que todos os aviões comerciais que cruzam o céu atualmente. Mas não, este material não serve só para a aviação civil. É ‘indispensável’ em quase todos os armamentos, de foguetes passando por explosivos até bombas atômicas. Também está presente nos desodorantes, o que afeta a pele.

Os Estados Unidos da América, a mineração e a ditadura militar

O onde é que está a curiosa relação entre alumínio e soja?

Se você buscar Carajás na internet você encontra muita informação sobre esta região situada nos estados do Pará e do Maranhão. Nesta região de mineração são encontrados minérios de ferro, bauxita, estanho, cobre, manganês e ouro, cercada pela monocultura de eucalipto, mas o movimento germano-brasileiro ‘Fórum Carajás’  (2) direciona suas flechas principalmente para a dobradinha alumínio e soja.

A ferramenta de busca também fornece a história de Carajás: “Os Estados Unidos da América tentam, há décadas, militarizar a região amazônica e fazer um inventário das matérias-primas. O alinhamento da Ditadura Militar (1964-1985) com os interesses dos EUA foi ideal para este propósito. Em 1967, a ‘U.S. Steel Company’ [Companhia Norte-Americana do Aço] fez um vôo de reconhecimento em busca de minerais. Oficialmente, o episódio foi registrado como um acidente sofrido por um geólogo cujo helicóptero caiu por falta de combustível. Ele tinha galões extras de combustível mas estava à procura de um lugar para abastecer. No meio da floresta, avistou um morro pelado e lá pousou seu helicóptero. Ele descobriu, surpreso, por que o morro não tinha árvores. Mais tarde seria determinado que 66% do subsolo era composto de ferro. Eles haviam descoberto a maior jazida de ferro do mundo. Em 1970, foi constituída uma sociedade entre o governo brasileiro (51%) e a U.S. Steel Company (49%). Na grande onda de liberalização da década de 90, esta empresa foi privatizada. Atualmente, as jazidas estão integralmente nas mãos da ‘Companhia Vale do Rio Doce’.”

Muitas páginas na internet sobre desrespeito aos direitos humanos, segurança privada e inacessibilidade dos sítios revelam que a companhia não age com tanta doçura quanto seu nome ‘Rio Doce’ sugere  (3). A ‘província dos minérios Carajás’ é uma zona proibida, abastecida via aérea. Não há estradas para acesso direto à região. A polícia é onipresente. Enquanto isso, 16 trens abastecidos de minério deixam a Carajás diariamente rumo ao porto de São Luís (7). Lá sempre podem ser observadas as filas de navios esperando pelo embarque de minério de ferro de Carajás e da soja do Maranhão rumo à China, Japão e Europa.

Alumínio: grande consumidor de energia e hidrelétricas

A produção de alumínio teve início nos fins da década de 70 como um dos componentes da Grande Carajás.

A construção de hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, deveria atender a grande demanda de energia elétrica. Devido à crise do petróleo de 1973, o Terceiro Mundo podia obter empréstimos baratos de petrodólares. Na nova crise do petróleo, em 1979, e principalmente depois da posse, em 1981, do presidente norte-americano Ronald Reagan e de seu Programa Guerra nas Estrelas, o dólar subiu rapidamente. Os empréstimos baratos passaram a ter de engolir juros elevados. Este megaprojeto, envolvendo a hidrelétrica e várias outras obras de infra-estrutura para mineração, custou US$ 62 bilhões. Junto com a maior hidrelétrica do mundo – a Itaipu no Paraná – é uma das causas da dívida externa astronômica do Brasil. Desde a inauguração de Tucuruí, em 1984, 22 mil pessoas foram obrigadas a deixar a região. Uma parte destas vítimas nunca foi indenizada pela deportação. Com Itaipu ocorreu o mesmo: indígenas da etnia Guarani  (4) e milhares de agricultores foram expulsos. Junto com a expansão da soja durante da Revolução Verde daquela época, a inundação desta região no sul do Brasil é uma das causas do surgimento do MST, já há 20 anos.

A fábrica de alumínio Alcoa, em São Luís, é uma das mais importantes do mundo. Nunca falta energia elétrica para este complexo voraz, enquanto os bairros da periferia de São Luís, freqüentemente, são deixados no escuro  (5).

Em 2003, o Brasil produziu 1,38 milhão de toneladas de alumínio. Mais de 50% deste total foram exportados.

Resistência e solidariedade

Há muita aflição e tormento, mas também há muita resistência e solidariedade  (6).

Assim, em 2004, os sindicatos de metalúrgicos alemães celebraram 20 anos de solidariedade com seus colegas no Brasil. Para eles, Carajás é muito importante.

No dia 17 de abril de 1996, próximo a Carajás, foram assassinados 19 agricultores do MST. A ‘Via Campesina’ declarou o dia 17 de abril como o ‘dia internacional da luta agrária’. Em todo o mundo, são realizadas nesta data mobilizações cujo tema é a luta entre estes dois modelos agrícolas conflitantes e, principalmente, em defesa da reforma agrária.

O Banco Mundial  (7) está sob um fogo cada vez mais cerrado, porque continua a investir em extração de óleo, gás e mineração enquanto isso – na maioria das vezes – não traz benefícios para a população local. No final de julho de 2004, o Banco Mundial comemorou 60 anos de sua fundação. Este fato memorável foi aproveitado para realizar, em todo o mundo, um dia de manifestações contra o aniversariante, o Banco Mundial. O foco era a exploração de óleo e a mineração. Atualmente, esse questionamento também se iniciou dentro do próprio Banco Mundial: ‘Será que esta é a nossa missão?’

As centenas de indígenas que morreram devido ao desmatamento, poluição e intoxicação (entre outros, devido a venenos utilizados no garimpo de ouro) geram cada vez mais solidariedade. Principalmente desde as comemorações ‘Brasil 500 anos’, em 2000, a conscientização dos povos indígenas aumentou muito. Neste ponto, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) realizou um importante trabalho de apoio.

Por fim, há o próprio ‘Fórum Carajás’ que há anos deu o alerta e lidera o movimento. No Fórum Social Mundial de 2000, eu observei algumas atividades do ‘Fórum Carajás’. Junto com o movimento ambiental latino-americano Rios Vivos  (8), eles organizaram um workshop.

O enfoque temático simultâneo do alumínio e da soja atraiu minha atenção, caro leitor. Da mesma forma que você também, provavelmente, arqueou a sobrancelha ao ler o título desta crônica.

Espiritualidade da lancheira? (9)

No início da década de 90 dei inúmeras palestras em escolas, ONGs e igrejas. Sempre tinha comigo alguns símbolos: uma latinha de Coca-Cola, um pacote de salgadinhos e uma lancheira. Toda a história da soja e do alumínio do Brasil estava naquela latinha, na lancheira e, portanto, na ausência de papel alumínio. A realidade da agricultura entrava na história por intermédio dos salgadinhos  (10). Alumínio e soja realmente têm muito em comum. Pelo menos a soja dos grandes fazendeiros. Professor Eric Goewie, de Wageningen, chama este tipo de agricultura de ‘mineradora’: em combinação com sol, ar e terra, busca extrair do solo o máximo de produto possível. Como na mineração. Isto não tem mais muita relação com cultivar, com preservar o Planeta Terra (11).

O alumínio é anunciado, pelas indústrias, como ‘O’ metal do século XXI. A soja é o ouro do mesmo século. Se, no ritmo atual, chegaremos até o final deste século com ambos os tipos de ouro é algo muito duvidoso.

 

(1) Uma vez que, desde a década de 50 do século XX, o Brasil tem optado por atender sua demanda de energia elétrica por meio de usinas hidrelétricas, milhares de quilômetros quadrados de terra foram submersos. Centenas de projetos e, portanto, milhares de quilômetros, aguardam sua vez. Junto com isso vêm: perda de terras férteis, expulsão de povos indígenas e agricultores, redução da biodiversidade, aumento na população de pernilongos e doenças provocadas por árvores apodrecendo nos reservatórios das hidrelétricas. Como geralmente se tratam de projetos gigantescos, há um problema de democracia: o fornecimento de energia elétrica está muito distante dos habitantes da região em questão. Muitos agricultores moram próximos dos lagos das hidrelétricas mas não têm energia elétrica. Desde a década de 90, muitas centrais de energia elétrica foram parar nas mãos de multinacionais, como a franco-belga Electrabel, Lyonaise des Eaux. A concentração de poder em poucas mãos invisíveis aumenta.
(2) Durante muitos anos, ‘Fórum Carajás’ tinha um braço alemão e um brasileiro. Atualmente, o braço alemão está adormecido por falta de financiamento. O Fórum Brasileiro continua a trabalhar furiosamente.

Seu endereço: Rua Armando Vieira da Silva, 110 - 65030–130 Apeadouro – São Luís-MA / Fone: (98) 3249 97 12; FAX: (98) 3275 42 67 / E-mail: forumcarajas@forumcarajas.org.br; www.forumcarajas.org.br.

(3) Alumínio e direitos humanos, ver: www.amazonia.net/Articles/249.htm.; informações gerais sobre a Amazônia: www.amazonia.org.br
(4) Nas margens do lago de Itaipu moram, há 20 anos, 300 a 400 famílias da etnia indígena Guarani. Eles ocupam também a faixa de preservação de 100 metros na qual não se pode praticar a agricultura. Eles estão presos entre os ‘colonos’, agricultores familiares, e o lago ao longo de 4 quilômetros. Os Guarani vivem o ‘aqui e agora’ e são felizes. Eles dispõem, em média, de 0,9 hectare de terra na qual cultivam mandioca, milho verde e feijão. Às vezes abatem um porco e pescam no lago. Os agricultores moram na ‘sede da agricultura química’ com trator, casa, etc. Eles são estressados porque têm que pagar as dívidas e os juros, agora e no futuro. Eles dispõem, em média, de 19 hectares de terra e podem colher três safras por ano. Raramente é possível observar, em tão curta distância, dois mundos com culturas tão distintas. Principalmente com um impacto ecológico tão distinto. A pressão sobre o meio ambiente dos imigrantes da Itália, Alemanha e outros países da Europa é incomparável com as reduzidas necessidades dos povos indígenas.
(7) O site do Banco Mundial nos informa sobre seu projeto de mineração: “O projeto é formado pela exploração de uma jazida de minério de ferro a céu aberto em Carajás, com uma capacidade de produção inicial de 35 milhões de toneladas por ano, um porto marítimo próximo da cidade de São Luís, no estado nordestino do Maranhão, que tem capacidade de receber navios com capacidade de transporte bruto de 280 mil toneladas e uma linha ferroviária simples (bitola de 1,60 m) com uma extensão de aproximadamente 890 km, fazendo a ligação entre a jazida e o porto. O projeto envolve também um plano de urbanização na região de Carajás, com a construção de habitações novas para, inicialmente, 10 mil pessoas e infra-estrutura ao longo da ferrovia (inclusive infra-estrutura ambiental e uma reserva indígena) e um programa de treinamento para funcionários. Custo na época: US$ 304,5 milhões.” web.worldbank.org/external/projects/main?pagePK=104231&theSitePK=40941&menuPK=228424&Projectid=P006329
(8) ‘Rio Vivos’ é uma organização ambientalista que se preocupa principalmente com a destruição dos mananciais na América Latina: Coalização Rios Vivo – Secretaria Executiva: Rua 14 de julho, 3169 - Campo Grande – MS / 79002-333 - Brasil - Fone/fax: (67) 324 323 rv@riosvivos.org.br www.riosvivos.org.br
(9) Muitos trabalhadores europeus têm o costume de levar seu almoço – geralmente composto de sanduíches preparados em casa e frutas – para o trabalho numa lancheira.
(10) Ver: ‘Espiritualidade da lancheira’ em TGL, nov-dez 1991-6, p. 611-621. ‘A lancheira’ surgiu como um díptico junto com ‘A espiritualidade da sandália’, TGL jan-fev 1994-1, p. 21-31, reunidas no jornal Wervelkrant ‘Van wereldvoedseloorlog naar wereldvoedselbeweging’ [Da guerra mundial por alimentos para o movimento mundial por alimentos], Wervel e TGL, Maastricht, 1998.
(11) jogo de palavras com a palavra em holandês ‘boeren’ [praticar a agricultura, cultivar], derivada do alemão ‘bauern’, que significa ‘conservar’.

Mots-clés

industrie minière, pollution, consommation d’énergie, soja


, Brésil

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Livre

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