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dialogues, propositions, histoires pour une citoyenneté mondiale

Soja e água

Luc Vankrunkelsven

09 / 2004

Primeiro alguns números relacionados com água (entre outros, das Nações Unidas):

  • 75% de nosso planeta é água (400 bilhões de km3).

  • Somente 2,5% desta água é doce. A maior parte desta água está ‘presa’ nas calotas polares (2,086%), outras porções são subterrâneas (0,291%), encontram-se em lagos (0,0017%) ou na atmosfera (0,001%). Somente 0,01% é de acesso imediato para consumo humano. Felizmente existe o ciclo de evaporação e precipitação que, anualmente, converte e distribui 500 mil km3. Porém, a evaporação e precipitação têm distribuição bastante irregular; as reservas hídricas, portanto, variam muito de região para região.

  • Restam cerca de 9 mil km3 de água doce para a humanidade. Isto é suficiente para garantir o acesso de 20 bilhões de pessoas a este direito básico. Entretanto, atualmente, 2 bilhões dos 6,1 bilhões de pessoas do mundo não dispõem de água potável. Em 2025, este número deve atingir metade da população mundial. Há, portanto, um problema político, social, ecológico e espiritual  (1).

  • Em 1950, havia 17 mil m3 de água à disposição para cada pessoa. Em 2004, este volume é de 7 mil m3.

  • Declaração de Ismail Serageldin, vice-presidente do Banco Mundial, em 1995: “No século XXI as guerras serão por água e não tanto por petróleo ou questões políticas.” Ou: “Água será o ‘ouro azul’ do século XXI.”

  • Dez países compartilham 60% das reservas hídricas, com o Brasil na liderança: 5.670 km3 no Brasil, 3.904 km3 na Rússia, China 2.880 km3, Canadá 2.850 km3, etc.

  • 70% de toda água consumida vai para a agricultura (principalmente à agroindústria de exportação); 20% da água consumida na agricultura é – efetivamente – utilizada pelas plantas.

  • 10% vai para o consumo doméstico; 20% para as indústrias.

O Brasil dispõe de 12% da água doce do mundo, mas a água está mal distribuída nas regiões e, principalmente, entre ricos e pobres. 80% da água doce brasileira encontra-se na Bacia Amazônica. Um novo assunto abordado nos jornais tem sido os navios marítimos do Oriente Médio que descarregam diesel na foz, em Belém, e depois enchem seus porões, ilegalmente, com água doce. Roubo de água, portanto, para regiões mais secas no mundo. O país possui um dos maiores lagos subterrâneos do mundo (o ‘Aqüífero Guarani’), no subsolo de oito estados: 1,2 milhões de km2. Esta rica reserva hídrica sofre todos os tipos de ameaças, que vão desde os reflorestamentos homogêneos de eucalipto, no Espírito Santo (um eucalipto adulto retira 700 litros de água por dia do solo), passando por centenas de represas e projetos de transporte fluvial até a imensa poluição, empobrecimento e seca. A irrigação e o abastecimento de água estão, freqüentemente, nas mãos da elite. A privatização cresce.

Principalmente a Europa clama, desde a década de 80, pela privatização da água, liderada pela França (atualmente, 75% da água está nas mãos de empresas privadas, 25% ainda é pública. Em 1945, era exatamente o contrário). Devido à privatização, o preço da água aumentou 50%, entre 1990 e 1994; em alguns casos até triplicou.

As maiores multinacionais da água são: Vivendi (36,5%), Suez-Lyonnaise des Eaux (22%) e Saur (16,5%). Juntas, detém 75% do ‘mercado de água’. Novatos nessa área são, por exemplo, Monsanto. Argumentação da diretoria: “Não só sementes são básicas, água também é.” Por isso, depois das ‘sementes’, eles investem agora em ‘água’. Desta maneira, Monsanto já detém muita água potável… na Índia.

As multinacionais e a União Européia ganharam – com o atual acordo-quadro na OMC (Genebra, 31 de julho de 2004) – uma grande batalha na guerra da água. Até o início de 2005, todos os membros da OMC devem divulgar sua posição em relação à abertura de seus mercados para ‘prestação de serviços’. ‘Venda de água’ é um dos serviços mais cobiçados. Por exemplo, em 2004, o faturamento decorrente da venda de água mineral foi de 920 milhões de euros; um aumento de 6% em relação a 2003.

Para finalizar, mais alguns números  (2):

Para a produção de um quilo de alimentos são necessários muitos múltiplos deste peso em água:

  • para 1 kg de trigo: 625 litros de água (555 milhões de litros por hectare).

  • para 1 kg de arroz: 3 mil litros.

  • para 1 kg de bife: 100 mil litros (outras fontes citam 25 mil l/kg).

Para a produção de um carro: 400 mil litros de água.

Para a produção de 1 kg de papel: 5 mil litros de água.

Um litro de óleo combustível pode poluir 50 milhões de litros de água.

Retomando: soja e água?

A explosão nas exportações de soja para a China, Europa, Japão e Índia é, essencialmente, exportação de: terras baratas, uma abundância de água e energia barata demais. A China dispõe de somente 7% das terras agricultáveis do mundo, mas abriga 20% da população mundial. O deserto de Gobi, uma grande área no centro-norte da China, avança assustadoramente. A China tenta conter a expansão do deserto e busca, simultaneamente, terras e água em outros continentes. Por isso os grandes investimentos no Brasil, já que o padrão de consumo de alimentos na China exige cada vez mais proteínas.

A União Européia, com seus (anteriormente) 15 países, abriga 6% da população mundial, mas produz 20% dos laticínios e domina 50% do mercado mundial destes produtos. Esta agricultura intensiva só é possível graças à importação de água, terra e energia na forma de ração animal.

Enquanto isso, a gestão dos recursos hídricos ameaça se descontrolar não só na Bacia Amazônica, mas em toda a América Latina. A notícia a seguir, de 29 de julho de 2004, dá o alerta:

{“Desmatamento pode causar graves conseqüências para economia brasileira

A destruição da floresta amazônica pode acarretar profundas mudanças no clima de toda a América do Sul. A desertificação no norte do país poderia afetar drasticamente o sistema hidrológico do continente, criando grandes áreas secas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil - responsáveis por 80% do PIB brasileiro. O alerta foi feito ontem pelo pesquisador Antônio Nobre, do INPA. Segundo ele, « o gado e a soja que estão chegando na Amazônia vão custar muito caro para o país”. « O problema não é apenas a Amazônia se transformar em cerrado, é mais sério do que isso. Estamos falando da possibilidade da destruição do ciclo da água na América do Sul, da desertificação de São Paulo, Mato Grosso e Paraná », afirmou Nobre.”}

(O Globo, 29/7, Ciência, p. 37; GM, 29/7, Meio Ambiente, p. A8; JB, 29/7, País, p. A3)

Cenários apocalípticos?

Nos últimos cinco a dez anos, 300 rios já secaram no cerrado  (3), como conseqüência do cultivo intensivo de soja. Todos estão entre os mais importantes contribuintes dos grandes rios que tornam o Brasil tão rico em recursos hídricos.

Dá para ficar contente com isso?

Não é sem razão que a ‘Romaria da Terra’ elegeu a água como tema deste ano. Já que os brasileiros têm praticamente tudo em abundância (terra, água, biodiversidade, costa, florestas, etc), eles têm a tendência de levar sua vida de maneira esbanjadora e despreocupada.

Curitiba é tida, internacionalmente, como uma cidade ecológica modelo. Uma fonte de inspiração para a urbanização européia e norte-americana. Entretanto, a ‘pegada ecológica’ da classe média curitibana não é menor do que a do habitante médio de Flandres.

 

(1) Ver: ‘O espírito vem pelas águas’, de Marcelo Barros, © Rede / Loyola, 2003. [título em holandês: ‘De spiritualiteit van het water’, Altiora-Averboda, 2005].
(2) Na comemoração de Wervel do Dia Mundial da Alimentação, Wervel e Vredeseilanden [‘Ilhas de Paz’] lançaram o jornal ‘Water en brood’ [‘Água e Pão’]. Nele você encontrará, entre outros, dados interessantes sobre consumo de água no mundo e a espiritualidade da água. Se a soja é chamada de ‘ouro verde’, a água pode ser considerada o ‘ouro azul’ do século XXI. Por isso o jornal também pode ser encontrado em formato eletrônico, no website de Wervel.

Mots-clés

soja, eau, agriculture d’exportation, gestion des ressources naturelles, commerce international


, Brésil

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Livre

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