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França, peixe e o ponto cego

Luc Vankrunkelsven

10 / 2004

Nossos vizinhos ao sul são fortes na construção de centros de informação interessantes. ‘Museu’ não é a palavra, embora o centro que tem como tema agricultura e alimentação tenha o nome de ‘Museu Agropolis’. A sede deste interessante ‘museu’ é Montpellier, Paris sedía ‘La Villette. Cité de Sciences et Technologies’ [‘La Villette. Centro de Ciências e Tecnologias’] e muitos outros centros. Boulogne sur Mer é a orgulhosa sede de ‘Nausicaä’  (1).

Óleos comestíveis franceses. Proteínas d’além mar holandesas

Em maio de 2004, a FAO realizou uma audiência com ONGs européias em Montpellier (França). Wervel e Vredeseilanden também participaram. Paralelamente, foi realizado um encontro para criar uma rede européia para a ‘agricultura sustentável’ (uma ‘coalizão internacional das coalizões nacionais’). Fomos convidados para uma das noites na interessante exposição em Agropolis.

Entre outros, foi explicado de uma maneira muito viva que a França é 15 vezes maior que a Holanda, mas que a agricultura nesta última é cinco vezes mais intensiva. O que não foi contado é que, para isso, a Holanda necessita do equivalente a cinco vezes (algumas publicações falam de sete e até 12 vezes) sua área agrícola no exterior para importar a ração animal. E mais: uma exposição interessante sobre a importância crescente dos óleos comestíveis. Muita atenção foi dada ao óleo de palma e ao óleo dos girassóis franceses. Nenhuma palavra sobre a soja e seu óleo! Mas espere: de repente, fanático que sou, encontro um folhetinho minúsculo informando que, em termos de volume, o óleo de soja é, de longe, o mais comercializado no mercado mundial.

O que está acontecendo aqui? Será que os simpáticos girassóis e as elegantes palmeiras estão aqui para desviar a atenção dos enormes lucros gerados pela soja?

Quintuplicação da pesca

Meados de setembro: um ponto cego semelhante no outro lado de ‘La Douce France’ [A doce França]. Fomos com um grupo passar o fim de semana em Boulogne sur Mer. Como vocês sabem, é a belíssima região com Cap Griz Nez e Cap Blanc Nez. Consta que Boulogne sur Mer também tem a maior frota de barcos pesqueiros da França. Neste âmbito, a cidade possui o centro educativo marinho ‘Nausicaä’. Chama a atenção o número de moradores de Flandres (Ocidental) que visitam a interessantíssima exposição sobre biodiversidade marítima e as ameaças a ela, plâncton vegetal e animal, pirâmides alimentares, pesca e, principalmente, pesca excessiva.

Ficamos sabendo que, atualmente, são pescados 100 milhões de toneladas de peixe por ano: cinco vezes mais do que na década de 50 do século XX. Destas, 2 milhões de toneladas são resultantes da pesca excessiva do atum  (2). Os métodos de pesca utilizados na pesca ‘moderna’ do atum também resultam na morte por asfixia de milhares de golfinhos que ficam presos nas redes. Isto também é bem explicado. O que não é contado é que a pesca realizada por navios europeus de pesca e processamento industrial na costa ocidental africana aumentou 20 vezes no período de 1950 a 2001. A outrora florescente frota pesqueira de Gana está desaparecendo devido à redução no resultado das pescarias. Como a biodiversidade marítima está se reduzindo dramaticamente, a população de Gana está recorrendo massivamente ao ‘bushmeat’, ou seja, à caça de animais silvestres. Novamente, a destruição da vida marítima dá as mãos à destruição em terra.

Peixe e soja

Mais adiante, há um enorme globo terrestre e seus oceanos. Da exposição anterior ficou claro que o plâncton e, portanto, os peixes se reproduzem bem em águas frias. Isto explica porque no Mar do Norte e no oceano, em direção ao Pólo Norte, existe tanto peixe (pesca). E também por que as correntes frias no lado ocidental dos continentes geram tanto peixe (pesca).

O Peru se destaca no mapa, com números elevados. O que eles não contam é que muito do peixe do Peru é pescado para, simplesmente, servir de alimento a outros peixes da aqüicultura em franca expansão em outras partes do mundo. Por exemplo, a enguia e a perca, na Holanda, não comem soja. A alimentação da tilápia, no Brasil, sim, é parcialmente composta de soja  (3).

Observa-se que a Noruega tem muita pesca. O que não se vê é que este país é um grande importador de soja. E com certeza esta não é destinada às poucas aves e suínos que eles criam e, sim, para a importante aqüicultura norueguesa.

Por fim, aprende-se que a China cria, pesca e consome muito peixe. Os chineses também cultivam muita alga para suas carpas. É interessante saber disso, mas o que – novamente – não é contado é que a China, há quatro anos, vem atuando como um ‘aspirador de pó’ no mercado mundial de: farinha de peixe dos sete mares, cereais. E substitutos de cereais: principalmente soja para aves, suínos, patos e peixes.

A França tem seus pontos cegos

E como estamos, na Holanda e na Bélgica?

 

(2) Muito educativa na exposição é, entre outras, a pirâmide alimentar nos oceanos e o fato de nos darmos conta da quantidade de alimento necessária para que uma pessoa possa comer um quilo de atum: “Para obter um quilo de atum são necessários oito quilos de enguias (o atum alimenta-se de enguias), 70 quilos de plâncton animal (as enguias alimentam-se de plâncton animal) e 200 quilos de plâncton vegetal (plâncton animal alimenta-se de plâncton vegetal).” Quanto ao consumo de peixe, (novamente) há uma desigualdade entre ricos (28 kg de peixe/pessoa ao ano) e pobres (10 kg de peixe/pessoa ao ano). Se os pobres se tornarem ricos e quiserem comer mais peixes, os oceanos serão ‘esvaziados’ ainda mais rápido. Com relação a esta última afirmativa, é possível fazer um paralelo com o consumo de carne: se os pobres ficarem mais ricos e puderem consumir mais carne, não haverá terra suficiente em nosso planeta para produzir toda a ração animal necessária. A Federação Internacional de Produtores de Ração Animal (IFIF, em inglês) estima que a necessidade mundial de ingredientes protéicos para ração animal triplicará até 2050. Atualmente são produzidas no mundo cerca de 600 milhões de toneladas de matérias-primas para ração animal. Comparemos este dado com a produção mundial de soja, que é de ‘apenas’ 220 a 230 milhões de toneladas. A alternativa? Que tal nós todos consumirmos menos proteínas de origem animal? É bom para os ecossistemas terrestres e aquáticos; faz bem para nossa própria saúde!
(3) Durante o intercâmbio de Wervel-Fetraf, visitamos Concórdia (Santa Catarina), um município com uma suinocultura intensiva. Vinculada a esta suinocultura, são criadas tilápias que recebem – nos dois primeiros meses – soja e milho. Depois disso, as tilápias são alimentadas com esterco dos suínos! Ou seja, 98% de sua ração é formada por esterco. Bom apetite…

Mots-clés

soja, pêche industrielle, agriculture et élevage


, France

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Livre

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