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dialogues, propositions, histoires pour une citoyenneté mondiale

Soja, aves, suínos e outras carnes

Luc Vankrunkelsven

02 / 2005

Faço minha caminhada diária após o almoço para comprar a ‘Folha de S. Paulo’.

No caminho, levo um pão multigrãos e algumas fatias de queijo. A balconista olha para mim e pergunta: “Presunto também?”

Novamente sou confrontado com o fato de que estou morando num país carnívoro. Você põe queijo e presunto juntos no pão. Minha mãe teria me dado uns cascudos! Não, para um vegetariano, a América Latina deve ser um verdadeiro pesadelo.

E não limpe o prato!

Na verdade, foi minha segunda ‘experiência carnívora’ do dia. No Brasil, o preço das refeições é muito baixo, inclusive carne. Por quilo. Você enche o prato, este é pesado, e você paga pelo ‘peso’ que seus olhos ‘acham’ que seu estômago agüenta.

Bem, um brasileiro de verdade se serve de muita carne e raramente limpa o prato. Se minha mãe…, ela iria…

Não, aqui no Brasil é mais ou menos o contrário. É quase falta de educação se você limpar o prato. Além disso, limpar o prato é sinal de pobreza. É melhor mostrar a todos que você não liga para uma migalha ou um pedaço de carne. Afinal, este é o paraíso tropical onde jorra leite e mel, com abundância de terras, sol, energia, gado, suínos, aves, perus, peixes… Soja e milho! Em Salvador, na Bahia, dizem que os restos são para os orixás  (1). Eles também têm que comer! Tudo bem, desperdicem de tudo, mas daí não venham reclamar quando for necessário inundar, novamente, dezenas de regiões porque necessitamos com urgência de mais hidrelétricas.

Lá estava eu, na fila, vendo as pessoas ao meu lado se levantarem e jogarem o que restara nos pratos no lixo. Estes restos eram compostos, na maior parte, de… carne. Eu lamento e penso no tanto de pasto, soja, milho, desmatamento, erosão e água que, na verdade, ficaram no prato. E, em seguida, vão parar no lixo.

Meu carro e a carne nossa de cada dia

Eu já tento, há 15 anos, discutir nosso (excessivo) consumo de carne. Não há tema mais sensível do que este. É que a redução do consumo de carne corta ‘na própria carne’, na sua própria prática. E isto dói. Mesmo no meio de Wervel o tema é sensível. No meio religioso, no meio dos batalhadores que lutam por justiça e contra a pobreza. No meio de agricultores, nos meios agroecológicos. É muito mais fácil fazer análises precisas e ter um discurso político afiado do que colocar em prática a redução de consumo próprio.

Tenho todo respeito pelos vegetarianos, mas não sou um deles. Freqüento mesas diferentes demais para isso. Eu teria que ser sempre ‘mal-educado’ e rejeitar o que me é oferecido.

Talvez – justamente por não ser vegetariano e de, às vezes, andar de carro – é que eu posso continuar questionando estes símbolos máximos de prosperidade. Comer carne e andar num carro particular são duas atividades de nosso dia-a-dia que levam, mundialmente, à maior parte da ocupação de terras. “Elas ampliam nossa ‘pegada’ ecológica”, diria VODO.

Ruminantes vegetarianos e os onívoros originais

Eu também sei que devemos fazer distinção entre aves-perus-suínos e ruminantes, que podem ter uma função benéfica em diversos sistemas agrícolas. Os processos de decomposição que ocorrem nas entranhas de uma vaca só trazem benefícios para a vida microbiana no solo. Leio sobre os experimentos que visam utilizar urina de vaca na adubação orgânica. O relato parece bastante promissor para a redução do poder das ‘premissas a agricultura química’. Descobre-se que, desde antigamente, as árvores frutíferas produzem mais quando o gado pasta na sua sombra. Aqui, eu moro na região do Turvo e Guarapuava onde, há mais de um século, os agricultores moram – com seu gado – na floresta. É o chamado sistema silvo-pastoril, uma variante da agrossilvicultura (‘agroforestry’). Na cidade-estado Flandres isto é impossível porque não é permitido soltar o gado na floresta. ‘A divisão das funções é sagrada’ no Plano Estrutural de Flandres! ‘É para evitar a acidificação’, mas omitimos que esta acidificação é resultado da criação intensiva de suínos e aves que, por sua vez, só são possíveis graças à importação de soja. Soja-milho: os gêmeos siameses da agricultura ‘moderna’.

Eu também sei que, há séculos, os suínos são a poupança do agricultor, um importante elo no ciclo de uma propriedade. E também no sistema de reciclagem da comunidade.

E as aves? As galinhas corriam soltas no terreiro. Ciscando, cacarejando. Com um orgulhoso galo no meio.

Frangos brasileiros contra frangos holandeses na Rússia

Mas isto são doces recordações do passado. Atualmente, consumir carne de frango, peru ou suínos é um ato político, econômico, social, ecológico e ético totalmente diferente do que 50 anos atrás. Desde a rodada de Dillon, do GATT, em 1962,  (2) surgiu uma enxurrada de matérias-primas para ração animal. Nos arredores dos portos de Roterdã, Antuérpia, Le Havre e Hamburgo, o ‘tsunâmi de ração’ decompôs a paisagem rural européia em regiões de lavoura e – próximo aos portos – em regiões de criação intensiva de aves e de suínos. Como furúnculos, estes estabelecimentos de pecuária intensiva surgiram próximos aos navios.

Adeus ciclo! Adeus reciclagem! Adeus poupança!

A carne de frango e suínos tem grande procura no mercado mundial. O valor agregado e o esterco permanecem na Holanda e em Flandres. Interessante do ponto de vista da balança comercial. Não que isso represente alguma vantagem para o agricultor. Na verdade, ele não existe mais, foi completamente absorvido pela cadeia de navios noturnos, fábricas de ração, abatedouros, desossadoras, distribuidoras e aviões.

Pare! Esta história já está quase ultrapassada. Você está atrasado. Atualmente, as grandes empresas estão se transferindo para o outro lado do oceano, lá onde crescem soja e milho em abundância. Perdigão, Sadia, Aurora dominam no estado de Santa Catarina. E, desde alguns anos, a empresa francesa Doux, com seus milhões de aves, no Mato Grosso, o Mato Alto, a Floresta Grande (que desapareceu!). Mas não se desespere: agora, o Brasil é o maior exportador de carne de frango do mundo!

Em 2003, Santa Catarina foi responsável por 31,9% das exportações brasileiras de carne de frango, Rio Grande do Sul por 28,5% e Paraná por 25,8%. Os mercados compradores mais importantes são Japão, Arábia Saudita e Rússia. Nestes mercados, eles concorrem com os frangos holandeses.

‘Mas isto é bom’, ouço você suspirar: ‘Assim o ciclo ecológico é restabelecido’. À primeira vista, sim, mas tratam-se de concentrações tão grandes que o lençol freático em Santa Catarina – a “Suíça brasileira” – está gravemente ameaçado.

‘Mas isto gera emprego para os brasileiros!’ Sim e não, os agricultores estão tão presos nas garras do sistema de produção integrada quanto os agricultores da Europa. E, nas indústrias de carne e derivados, a maior parte do trabalho é feita por máquinas. E também, por enquanto, não vamos falar do bem-estar dos animais.

‘Então as galinhas não andam ciscando livremente no terreiro?’ Saudosismo, gente! Saudosismo… Elas vivem tão aglomeradas quanto no porto de Roterdã. E, é tabu, mas todos falam à boca pequena: aqui se usa muito hormônio. E outros produtos. A legislação é ótima, mas a fiscalização é pequena.

O Brasil é campeão em pedidos de arbitragem à OMC, em Genebra. Em outubro de 2003, o país apresentou uma reclamação, junto com a Tailândia. Eles querem vender seus frangos baratos na Europa. Baratos? Sim, por meio euro você compra um frango limpo no Paraná. Mas a União Européia se mantém firme em sua posição.

‘E carne de porco?’

A mesma história, amigo. A mesma história, com pequenas variações.

Gado e o ‘efeito estufa’

Suspiro! ‘E carne de gado, então?!. Este pode ser perfeitamente inserido no seu sistema agrícola.’

Sim, mas isso depende de muitos fatores. Você deve ter coragem para encarar os fatos do ponto de vista do planeta, em relação ao solo, à água, ao efeito estufa.

‘Efeito estufa!?’ Sim, acabo de receber um e-mail de um colaborador de Wervel, Jeroen Watté. Há anos ele discute a ‘pegada’ ecológica de nosso modo de vida.

Vou citar um trecho: “Fato é que o Reino Unido (um dos líderes da União Européia em emissões de gases que provocam o efeito estufa) poderia cumprir suas obrigações decorrentes do Tratado de Kyoto se mantivesse todas as suas vacas confinadas e ‘queimasse’ os gases produzidos. Mas, seria uma grande perda para a paisagem rural, pastos sem vacas.”

‘Isto não é um pouco exagerado? Certamente é um desses ecologistas fanáticos!’

Em virtude da aplicação do Tratado de Kyoto, leio no jornal daqui que o gás metano provoca, potencialmente, 23 vezes mais aquecimento do que o CO2. E, de fato, vacas produzem uma quantidade razoável de gás metano, num aquecimento potencial equivalente ao de um pequeno veículo de passeio por vaca. Entretanto, no Brasil, estes jornais não podem – absolutamente – ser classificados de ‘verdes’.

A ‘conexão hambúrger’

Num outro jornal, encontrei uma avaliação das conseqüências ecológicas do consumo de carne para a floresta amazônica: “A Amazônia sofre com um processo que teve início na América Central e ficou conhecido como ‘conexão hambúrguer’. A idéia é derrubar a floresta para criar gado. A carne é exportada para os Estados Unidos, para as cadeias de ‘fast-food’. Em 1991 não havia na Amazônia gado suficiente nem para alimentar a população local. Com o avanço da pecuária na região, o país aumentou suas exportações de carne de US$ 500 milhões, em 1995, para US$ 1,5 bilhão, em 2003, sendo que 80% disso vem da região amazônica.”

‘Bem, do ponto de vista ecológico, político e econômico é, realmente, uma vaca bem diferente daquela que se vê num pasto em Limburg [região na fronteira entre Bélgica e Holanda].’

Sim, mas nós não temos muito que falar, hein! Nossos antepassados desmataram Flandres ainda no século XIII. E o que os brasileiros estão fazendo atualmente, os americanos já fizeram no século XIX. Eles até se justificavam usando uma expressão religiosa: “Os Estados Unidos da América têm a vocação de alimentar o mundo.” Bem, é o que ouço agora na terra do Lula: “O Brasil tem a vocação de alimentar a China e o mundo inteiro. Nós temos a terra, a água, o sol. Venham construir ferrovias aqui. Assim, a soja e outras ‘commodities’ chegarão mais rápido e barato até vocês.”

É como se a religiosa norte-americana Dorothy Stang  (3) quisesse denunciar esta loucura em ambas as Américas. Por isso, ela recebeu seis balas em seu corpo frágil. A máfia da carne não se intimida com nada. E Flandres, com o caso do veterinário Van Noppen  (4), conhece bem esta história.

Na reconstituição do assassinato, Rayfran das Neves Sales, um dos pistoleiros, perguntou: “E aí? A senhora não come carne?!”

(Com isso, ele faz alusão ao pedido da irmã para pararem de jogar sementes de capim nas lavouras dos pequenos agricultores. Em pouco tempo, as gramíneas cobrem as verduras e o gado do fazendeiro entre em cena. O conflito está relacionado com a desapropriação que o governo quer realizar nestas terras adquiridas ilegalmente. Seria um projeto de desenvolvimento sustentável, no qual somente pequenos agricultores poderiam produzir, em harmonia com a floresta.)

Irmã Dorothy respondeu que, sim, comia carne e abre a única arma de que dispõe. Ela lê o Sermão da Montanha (Mateus 5, 5.6.9): “Bem-aventurados os… , porque possuirão… ”

Rayfran pega a sua arma e atira em Dorothy. Seis balas.

O lema da Campanha da Fraternidade de 2005 (das igrejas brasileiras) é: “Felizes os que promovem a paz”. Parece que foi a ‘arma’ de Dorothy, pouco antes de morrer.

Desde 2001, 50% de um boi europeu é ‘lixo’ que deve ser incinerado.

‘Antigamente, não se perdia praticamente nada de um animal abatido. De um modo ou de outro, tudo era aproveitado na propriedade. Qual a situação atual?’

Devido ao medo do ‘Mal da Vaca Louca’, há cada vez mais resíduos num boi abatido, chegando a quase 50%. Ao comer um quilo de bife, você como – na verdade – dois, porque o ‘resíduo’ também tem que ser alimentado com capim. Ou, na variante ‘moderna’, com uma dose generosa de ração de milho e soja.

Afinal, desde 2001, o resíduo não pode mais ser reciclado na ração animal, mas deve ser incinerado. E substituído por – novamente – soja ou outras proteínas de origem vegetal.

Ao longo de todo o processamento, do novilho vivo até a carne no prato, as perdas são grandes. Nos corredores do debate sobre ‘Açúcar e Leite’ durante o Fórum Social Mundial, um francês me entrega um pequeno estudo do “L’ Institut de l’ Élevage et de la Confédération Nationale de l’ Élevage” [Instituto de Pesquisa Pecuária e da Confederação Nacional de Pecuária]  (5). Este termina com um quadro didático que eu gostaria de reproduzir aqui. Ele me apóia na minha luta solitária para não somente tirar a carne do prato, mas também para trazê-la à mesa de discussões:

 

Do animal ao bife

Rendimento padrão de uma vaca leiteira (Charolês [raça de gado originária da França]) com 740 kg de peso vivo e carcaça classe U3 de 400 kg.

peso (quente) ao abate:740 kg

perdas durante jejum, espera e transporte: 4,4%

peso de carcaça quente:408 kg

perdas no sangramento: 2,0%

peso de carcaça frio: 400 kg

rendimento após o abate: 54%

perdas por maturação: 1,0%

peso de carcaça após maturação: 396 kg

carne comercializável:269 kg

carne/peso de carcaça: 68%

• ossos: 18%

• gordura: 11%

• resíduo: 5%

após cozimento rápido: 150 kg

(56% do peso de carne comercializável) após cozimento lento: 119 kg

(44% do peso de carne comercializável)

‘Agora me calo. Será que não é mesmo melhor que eu me torne vegetariano?’

 

 

 

(1) Orixás: espírito/deidades das religiões afro-brasileiras.
(2) Ver as numerosas publicações de Wervel sobre a questão.
(3) Dorothy Stang, 73 anos, uma freira de origem norte-americana, foi assassinada no dia 12 de fevereiro de 2005 por pistoleiros, a mando de fazendeiros. Trata-se da ‘receita consagrada’ de pistoleiros de aluguel que, há décadas, é praticada no Pará. Anos atrás, Irmã Dorothy naturalizou-se brasileira. Chama atenção o fato da imprensa escrever sobre a freira ‘norte-americana’ durante semanas, enquanto sobre as vítimas brasileiras os jornais só escrevem, no máximo, durante um ou dois dias. Devido a seu passado colonial, o Brasil sofre – evidentemente – da síndrome ‘Quem ou o que vem dos Estados Unidos ou da Europa não pode ser outra coisa senão melhor ou mais importante’.
(4) Veterinário do Serviço de Inspeção Animal, assassinado há dez anos na Bélgica por causa de sua atuação contra a ‘máfia dos hormônios’.

Mots-clés

viande, agriculture et élevage, soja


, Brésil

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Livre

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