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O Mito dos Agrocombustíveis

07 / 2007

É preciso desmistificar a propaganda sobre os supostos benefícios dos agrocombustíveis. O conceito de energia “limpa” e “renovável” deve ser discutido a partir de uma visão mais ampla que considere os efeitos negativos destas fontes.

A produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e do milho

No caso do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, o cultivo e o processamento da cana poluem o solo e as fontes de água potável, pois utilizam grande quantidade de produtos químicos. Cada litro de etanol produzido dentro da usina, em circuito fechado, consome cerca de 12 litros de água. Esta quantidade não inclui a água utilizada no cultivo que, no caso das monoculturas irrigadas, consomem muito mais. Portanto, a produção de agroenergia representa um risco de maior escassez de fontes naturais e aqüíferos.

O processo de destilação do etanol produz um resíduo chamado vinhoto. Para cada litro de etanol produzido são gerados de 10 a 13 litros de vinhoto. Uma parte do vinhoto pode ser utilizada como fertilizante, se diluído em água. Porém, pesquisadores advertem que esta substância contamina rios e fontes de água subterrâneas. Se a produção anual de etanol no Brasil é de 17 bilhões de litros, significa que pelo menos 170 bilhões de litros de vinhoto são depositados nas regiões de canaviais.

A queimada da cana serve para facilitar o trabalho da colheita, além do fato que, quando se corta a cana queimada, a mão-de-obra é mais barata. Porém essa prática destrói grande parte dos microorganismos do solo, polui o ar e causa doenças respiratórias. O processamento da cana nas usinas também polui o ar através da queima do bagaço, que produz fuligem e fumaça. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais tem decretado estado de alerta na região dos canaviais em São Paulo (maior produtor de cana do país) porque as queimadas levaram a umidade relativa do ar a atingir níveis extremamente baixos, entre 13% e 15%.

Além da degradação ambiental e do uso indiscriminado dos recursos naturais, o monocultivo da cana-de-açúcar dominará algumas das melhores terras agricultáveis no Brasil. A expansão dessa monocultura irá substituir terras produtoras de alimentos em produção de agroenergia, visando principalmente o lucro. No Brasil, a produção de cana-de-açúcar tem invadido áreas de assentamentos da Reforma Agrária, de comunidades tradicionais e de outros setores do agronegócio, como a pecuária.

No caso da produção de etanol a partir do milho, o problema central é o risco que este projeto apresenta para a soberania alimentar. A diferença em relação a outros cultivos é que o milho é um dos principais grãos que formam a base da alimentação humana e sua utilização como combustível deve gerar um aumento de preços de vários produtos.

Recentemente, o governo dos Estados Unidos anunciou que pretende substituir 20% do consumo de gasolina com etanol. Atualmente o milho é a base da produção de etanol nos Estados Unidos. A meta do governo Bush é chegar a uma produção anual de 132 bilhões de litros de etanol até 2017.

Para isso, os EUA (maior produtor de milho do mundo) teriam que utilizar toda a sua atual produção (268 milhões de toneladas de milho) e ainda necessitariam importar cerca de 110 milhões de toneladas—o que equivale ao total da produção anual de milho no Brasil.

Em 2006, o preço do milho no mercado mundial teve um aumento de 80%. No México, o aumento das exportações de milho para abastecer o mercado de etanol nos Estados Unidos causou um aumento de 100% no preço das tortillas, que representam a principal fonte de alimento da população. Na China, prevendo um problema de abastecimento, o governo proibiu a produção de etanol a partir do milho.

A edição de março de 2007 da revista Globo Rural traz um artigo que diz, “Em termos mundiais, o cultivo de milho deverá avançar sobre áreas de soja, trigo e algodão, o que vai causar uma alta generalizada desses produtos em um verdadeiro efeito dominó”. Os preços do trigo e do arroz já subiram, pois a demanda por estes cereais aumenta na medida em que a população busca alternativas para substituir o milho.

A alta do preço do milho deve afetar também o custo da criação de aves, bovinos e suínos, pois representa 75% de todos os grãos utilizados na ração animal. Isso acarretaria um aumento no preço de produtos derivados, como leite, ovos, queijo, manteiga, etc. Segundo o diretor da União Brasileira de Avicultura, Clóvis Puperi, “nenhum cereal teria a capacidade de substituir o milho com rapidez sem causar um terremoto no mercado”.

Outra ameaça é a elevada quantidade de água utilizada na produção de milho. Segundo o professor Pimentel, da Universidade de Cornell, em Nova York, para cada quilo de milho produzido, gasta-se de 500 a 1.500 litros de água. E para produzir um litro de etanol a base de milho, precisa-se de 1.200 a 3.600 litros de água. Além disso, as usinas são movidas a carvão ou gás, o que resulta em maior emissão de carbono na atmosfera.

A produção de diesel vegetal a partir da soja e do óleo de palma

No caso da soja, as estimativas mais otimistas indicam que o saldo de energia renovável produzido para cada unidade de energia fóssil gasto no cultivo é de 0,4 unidades. Isso se deve ao alto consumo de petróleo utilizado em fertilizantes e em máquinas agrícolas. Além disso, a expansão da soja tem causado enorme devastação das florestas e do cerrado (ou savanas), destruindo a biodiversidade em diversos países, inclusive no Brasil.

Mesmo assim, a soja tem sido apresentada pelo governo brasileiro como principal cultivo para agrodiesel, pelo fato de o Brasil ser um dos maiores produtores do mundo. “A cultura da soja desponta como a jóia da coroa do agronegócio brasileiro. A soja pode ser considerada a cunha que permitirá a abertura de mercados de biocombustíveis”, afirmam pesquisadores da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.

O governo estima que mais de 90 milhões de hectares de terras brasileiras poderiam ser utilizadas para produzir agrocombustíveis. Somente na Amazônia, a proposta é cultivar 70 milhões de hectares com dendê (óleo de palma). Este produto é conhecido como “diesel do desmatamento”. Sua produção já causou a devastação de grandes extensões de florestas na Colômbia, Equador e Indonésia. Na Malásia, maior produtor mundial de óleo de palma, 87% das florestas foram devastadas. Na Indonésia, o governo pretende expandir a produção de óleo de palma em 16.5 milhões de hectares, o que pode resultar na destruição de 98% das florestas. Diversas organizações ambientalistas alertam que a expansão de monoculturas em áreas de florestas representa um risco muito maior para o aquecimento global do que as emissões de carbono provenientes de combustíveis fósseis.

Além da destruição de terras agrícolas e de florestas, há outros efeitos poluidores neste processo, como a construção de infra-estrutura de transporte e armazenamento, que demandam grande quantidade de energia. Seria necessário também aumentar o uso de máquinas agrícolas, de insumos (fertilizantes e agrotóxicos) e de irrigação para garantir o aumento da produção. No caso do óleo de palma, um estudo do instituto Delft Hydraulics constatou que cada tonelada produzida representa 33 toneladas em emissões de dióxido de carbono. Portanto, este combustível vegetal polui 10 vezes mais do que o diesel comum.

A produção de biodiesel a partir da mamona e do pinhão manso

O Programa Brasileiro de Biodiesel inclui a mamona e o pinhão manso como possíveis culturas para a produção de agroenergia, principalmente envolvendo pequenos agricultores. Porém, há sérias dúvidas sobre a viabilidade desses projetos. Segundo analistas, a mamona é economicamente mais viável para outros fins, como a produção de óleo lubrificante para o setor de aviação e para automóveis de alto desempenho.

Sobre o pinhão manso, pesquisadores da Embrapa alertam que não há conhecimento técnico confiável que garanta a viabilidade da produção dessa cultura em volume suficiente para o Programa de Biodiesel. Eles afirmam que “grande parte das informações divulgadas sobre a cultura provém de fontes pouco confiáveis, principalmente da Internet, em páginas de empresas privadas, onde as vantagens da planta são exaltadas.” E acrescentam que “não existem lavouras bem estabelecidas (com pelo menos cinco anos) onde se possa confirmar sua produtividade e rentabilidade. Seja no Brasil ou em outros países, não foram encontrados relatos de experimentos com validade científica de longa duração”.

A produção de biomassa a partir de material celulósico

Novas pesquisas pretendem introduzir no mercado mundial a chamada “segunda geração” de agrocombustíveis, desenvolvidos a partir de material celulósico, que estariam disponíveis em aproximadamente dez anos. Com isso, cria-se a idéia de que os agrocombustíveis produzidos a partir de fontes de alimento seriam substituídos rapidamente, afastando o risco de impacto em relação à segurança e soberania alimentar. Porém, caso se mantenha o atual ritmo de expansão das lavouras de milho, cana, soja e palma (que atualmente são as principais matérias primas para os agrocombustíveis), dentro de dez anos já teremos um impacto significante.

De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas de Alimentação (International Food Policy Research Institute), o preço dos alimentos pode subir de 20 a 33% até 2010 e de 26 a 135% até 2020, caso se mantenha a atual expansão da produção de agrocombustíveis. Segundo a FAO, atualmente cerca de 824 milhões de pessoas não têm acesso à alimentação adequada. Este número pode subir para 1,2 bilhões em conseqüência do aumento do preço dos alimentos.

Outro mito em relação aos agrocombustíveis celulósicos é de que não utilizariam terras agrícolas e de que seria aproveitados resíduos orgânicos das próprias lavouras de milho, cana, etc. Em primeiro lugar, o que se costuma chamar de resíduos orgânicos são fertilizantes naturais que servem para nutrir e proteger o solo. Se este material é utilizado para outro fim, seria necessário aplicar fertilizantes químicos, a base de petróleo, o que anularia os efeitos positivos em relação ao aquecimento global.

A biomassa a partir de material celulósico está sendo desenvolvida principalmente através de espécies geneticamente modificadas de árvores, que apresentam um grande perigo de contaminação de outras lavouras, pois é praticamente impossível controlar sua polinização, além do risco de extensão dessas lavouras em áreas de florestas.

Agrocombustíveis transgênicos

Empresas de organismos geneticamente modificados, ou transgênicos, passaram a desenvolver tipos de culturas não comestíveis, somente para a produção de agroenergia. Como não há meios de evitar a contaminação dos transgênicos em lavouras nativas, essa prática coloca em risco a produção de alimentos e pode agravar o problema da fome no mundo.

Nos Estados Unidos, a produção de etanol já é feita a partir de um tipo de milho transgênico, não comestível. Os próprios agricultores admitem que não há meios de controlar a contaminação, pois cultivam ao mesmo tempo milho para etanol e para consumo humano.

A expansão da produção de agroenergia é de grande interesse para empresas de organismos geneticamente modificados como Monsanto, Syngenta, Dupont, Dow, Basf e Bayer, que esperam obter maior aceitação do público se difundirem os produtos transgênicos como fontes de energia “limpa”.

No Brasil, o grupo Votorantin tem desenvolvido tecnologia para a produção de cana transgênica para a produção de etanol, através de duas empresas, Alellyx e CanaVialis, que recentemente fizeram uma parceria com a Monsanto. Este acordo permitirá que a Alellyx e a CanaVialis tenham acesso a genes de soja e algodão transgênicos desenvolvidos pela Monsanto, para aplicar esta tecnologia nas pesquisas de cana-de-açúcar transgênica.

Mots-clés

agrocarburant, agriculture et environnement, pollution des sols, production d’énergie, souveraineté alimentaire

dossier

Agroénergie : mythes et impacts en Amérique latine

Notes

Os textos e o manifesto “Tanques Cheios às Custas de Barrigas Vazias” foram apresentados no Seminário sobre a Expansão da Indústria da Cana na América Latina, de 26 a 28 de fevereiro de 2007, em São Paulo.

Este dossiê « Agroenergia: Mitos e impactos na América Latina » está também disponível em inglês, espanhol e francês.

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