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Metodologia de implementação do kit diversidade no Município de Guaraciaba - Santa Catarina-Brasil

Adriano Canci, Clístenes Antônio Guadagnin, Cristina Mayumi Ide Guadagnin, Antonio Moreira

07 / 2010

Etapas da implementação

O kit diversidade desenvolvido no município de Guaraciaba, teve por objetivo incentivar a produção de alimentos para consumo próprio dos agricultores familiares. Foi um trabalho participativo que envolveu as comunidades em várias etapas que descrevemos a seguir:

a) Reunião com a diretoria da microbacia e grupo de animação

A primeira etapa do processo foi em uma reunião com a diretoria e o grupo de animação/GAM. Formado por 20 pessoas eleitas entre os moradores das comunidades que integram a Associação de Desenvolvimento da Microbacia/ADM, que avaliaram as ações priorizadas no Plano de Desenvolvimento da Microbacia Hidrográfica/PDMH demandadas pela maioria das famílias associadas.

Os agricultores e o facilitador que participaram do curso sobre Agrobiodiversidade, organizado pelo Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade/NEABio da Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC.

Os envolvidos no curso promovido pelo NEABio/UFSC, expuseram à Diretoria da ADM e ao Grupo de Animação/GAM a idéia do kit diversidade. Nesse mesmo encontro foi realizado um planejamento mínimo para que a ação kit fosse debatida com as comunidades e posteriormente aprovada em assembléia geral. A diretoria da ADM teve um papel destacado na proposta de implementação do kit, gerenciando e encaminhando ações, de modo que todas as ações desenvolvidas na associação aconteceram através de processos conjuntos de tomada de decisões, no qual a Diretoria propôs essa ação para as famílias associadas.

b) Reunião com as comunidades

Nessas reuniões, os participantes foram incentivados a manifestarem a sua opinião sobre a proposta de trabalho. Esse momento serviu também para relembrar que a produção de alimentos pelas famílias era uma ação já priorizada anteriormente no plano da microbacia. Foram diagnosticadas as espécies e as cultivares de interesse de cada família integrante da associação e das famílias que ainda mantinham esses cultivos. Também foram levantadas algumas informações dos agricultores sobre os motivos pelos quais desejavam determinadas variedades.

Nas reuniões comunitárias foram discutidos os motivos pelos quais muitas famílias deixaram de cultivar variedades mantidas basicamente para a alimentação de autoconsumo, onde se destacaram: a diminuição do tamanho das famílias pelo abandono da atividade agrícola, a maior dedicação a atividades produtivas de maior expressão econômica como a cultura do fumo e a expansão da bovinocultura de leite, a perda de determinadas variedades em função de adversidades climáticas, a possibilidade de aquisição desses produtos nos mercados locais e a diminuição das trocas de sementes entre as famílias, que são mantidas principalmente pelas mulheres.

Um elemento importante do trabalho, diagnosticado nos encontros realizados nas comunidades, foi à identificação de famílias de agricultores que mantinham os cultivos daquelas espécies e variedades antigas de interesse da comunidade para fazerem parte do kit. Em todas as reuniões surgiram informações sobre variedades de feijão, arroz, batatinha de ano, alho, melancia, amendoim, abóbora, melão e diversas outras espécies e aspectos relevantes de seu cultivo, como época de plantio, tratos culturais, colheita e conservação das sementes. Nessas etapas de discussão buscou-se identificar as famílias que tinham interesse em multiplicar as sementes desejadas pelas demais famílias da microbacia – aquelas que já mantinham essas variedades ou outras famílias que receberiam as sementes para posterior cultivo e distribuição

c) Escolha das espécies e variedades

A composição do kit diversidade foi definida em cada comunidade através de processos participativos de tomada de decisão. Assim, os kits distribuídos foram diferentes, constituídos com 5 a 12 cultivares de 5 a 8 espécies, respeitando-se as preferências das famílias e a disponibilidade de cultivares e/ou sementes. Foram escolhidos os interessados em multiplicar as sementes, o dimensionamento das áreas necessárias para suprir as quantidades desejadas, o método de armazenagem e a forma de distribuição dos kits nas comunidades. A aquisição das sementes foi realizada preferencialmente entre famílias da comunidade ou de regiões vizinhas, a partir das informações obtidas anteriormente com essas pessoas.

A escolha das espécies e variedades que compuseram os kits ocorreu de modo participativo através de encontros entre as famílias e os técnicos envolvidos. Nestas reuniões, após debates sobre a proposta do kit, as famílias de agricultores eram questionadas sobre “quais as cultivares que gostariam de ter”, valorizando-se as preferências e os gostos locais. Nesse momento, resgataram-se diversos conhecimentos sobre variedades como a batata de ano os feijões, os tipos de arroz, as cultivares de hortaliças e muitas outras. Essas são cultivadas desde a chegada dos imigrantes de descendência italiana e alemã, entre outras, que povoaram a região do Oeste Catarinense a partir da década de 1950.

A partir da relação das espécies e variedades que as famílias gostariam que fizessem parte do kit, seguiu-se com outro questionamento: “quem tem essas sementes e quem gostaria de multiplicar essas sementes para serem distribuídas às famílias?”. Algumas delas cultivadas há mais de 40 anos na região. Assim, foi escolhido o arroz da variedade “Mato-Grosso” cultivado pelo agricultor Roque de Moura da Linha Ouro Verde. O feijão “Schmitz” cultivado pelo agricultor Leonildo Schmitz da Linha Tigre. A melancia “do Orlando”, do agricultor Orlando Glaas da Linha Ouro Verde. O alho da Dona Terezinha, e a ervilha da Dona Clarinda.

d) A produção de sementes

As sementes que compõem o kit foram produzidas em propriedades localizadas nas mesmas comunidades onde foram distribuídas.. Foi necessário o planejamento do tamanho da área de produção de acordo com o número de famílias da microbacia, ou comunidade e espécie envolvida, respeitando os princípios da agroecologia. Uma família ficou encarregada do cultivo de uma ou mais variedades, de acordo com a sua disposição. Durante o ciclo de cultivo houve o acompanhamento por parte dos técnicos e de agricultores interessados em avaliar o desenvolvimento das variedades. Os cultivos dessas variedades foram desenvolvidos de modo a não se utilizar agrotóxicos, conforme decisão tomada. O plantio das sementes para compor o kit aconteceu de acordo com as informações debatidas anteriormente nas reuniões, mas sempre respeitando as particularidades e condições locais de cada família.

A colheita, seleção e limpeza das sementes que compuseram o kit diversidade foram realizadas nas propriedades dos agricultores que as cultivaram, de acordo com as informações discutidas anteriormente nas reuniões. As sementes foram acondicionadas pelos próprios agricultores e em alguns casos fora das propriedades, em mutirão, com apoio dos técnicos. O conjunto de diversos pacotes de sementes que foram colocadas numa caixa de papelão – o próprio kit diversidade – trazia também as informações principais com os cuidados do cultivo daquelas variedades. A fonte dessas informações foi o conhecimento dos próprios agricultores que mantiveram as sementes e dos técnicos envolvidos.

e) Seleção das sementes

As sementes foram selecionadas pelas próprias famílias que multiplicaram esses materiais com o acompanhamento do técnico facilitador do projeto MB2 e os extensionistas da Epagri do município de Guaraciaba. A contribuição dos conhecimentos informais mantidos pelas famílias de agricultores através das gerações, sobre como e quando plantar e conservar, associada aos conhecimentos formais foi fundamental para preservar esse patrimônio genético de inestimável valor e conhecimento agregado. Também proporcionou às famílias que receberam esse conjunto de sementes e conhecimentos que compõem o kit diversidade as condições necessárias à multiplicação em suas propriedades, possibilitando a garantia da manutenção e ampliação da agrobiodiversidade existente.

f) Armazenamento e embalagem das sementes

A etapa de armazenamento e embalagem aconteceu tanto nas propriedades das famílias que produziram as sementes como nas famílias que as receberam para plantio.

Uma estratégia utilizada foi manter as sementes a serem distribuídas o menor tempo possível na propriedade do produtor de semente, de modo que cada família, a partir do momento em que recebia o kit, ficasse responsável pela conservação das sementes até o momento do plantio. As sementes foram embaladas em envelopes individuais de papel e o conjunto dos diferentes pacotes de sementes foi acondicionado em caixas de papelão para posterior distribuição às famílias.

g) Distribuição das sementes

A distribuição dos kits foi realizada em reuniões em cada uma das comunidades pertencentes à microbacia, com a participação de integrantes das famílias associadas que receberam individualmente o kit diversidade. Em algumas comunidades, lideranças locais pertencentes à diretoria das ADMs se encarregaram da distribuição dos kits aos seus vizinhos. A estratégia de distribuição dos kits de sementes a todas as famílias associadas aconteceu logo após a colheita das sementes nas propriedades. Verificou-se também que algumas famílias realizaram a troca solidária de variedades de sementes de interesse, sem a participação da estrutura montada para o trabalho do kit.

A distribuição de sementes, com antecedência às épocas de plantio, permitiu além da melhor conservação das sementes, o planejamento do cultivo com melhor definição e preparo do solo a fim de garantir um bom desenvolvimento das culturas. Mesmo assim, em certos casos, ocorreram problemas com adversidades climáticas que dificultaram o cultivo e o desenvolvimento das variedades. Outros detalhes da distribuição do kit nas comunidades estão descrito no capítulo 1.3.

Resumo das etapas de implementação

De modo geral, as etapas metodológicas da implementação do kit diversidade em Guaraciaba, podem ser assim resumidas:

1. Identificação, pelos agricultores, da demanda prioritária de produção de alimentos para o autoconsumo, definida no PDMH;

2. Participação em curso promovido pelo Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade/NEABio da Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC. NEABio/UFSC;

3. Reunião com a diretoria da ADM e GAM Rio Flores e Ouro Verde, grupo esses alavancadores da proposta;

4. Diagnóstico da produção de alimentos para autoconsumo, com objetivo de conhecer a realidade local, espécies menos e mais plantadas. Essa atividade foi feita através de reuniões, mas pode ser feita através de entrevistas, ou as duas;

5. Capacitação de agricultores e técnicos envolvidos com os trabalhos sobre agrobiodiversidade, metodologias participativas, métodos de seleção e melhoramento de variedades com agricultores familiares e outros;

6. Assembléias das associações de microbacias, encontros e reuniões formais e informais para debaterem os temas relacionados à produção de alimentos para o autoconsumo.

7. Diagnóstico das variedades de interesse realizado em reuniões;

8. Identificação das famílias que mantinham o cultivo das variedades de interesse do grupo e aspectos principais do cultivo e conservação;

9. Escolha das famílias voluntárias responsáveis pela multiplicação das sementes que compõem o kit diversidade;

10. Reunião com agricultores multiplicadores;

11. Plantio e cultivo das variedades do kit diversidade pelas famílias com o acompanhamento e assistência técnica dos facilitadores do MB2 e extensionistas da Epagri local;

12. Acompanhamento dos cultivos por parte dos técnicos e agricultores vizinhos;

13. Colheita, seleção e beneficiamento das sementes;

14. Definição do número de sementes que cada família vai receber, considerando a necessidade de cada espécie para manter a variabilidade genética.

15. Embalagem e conservação das sementes com a participação de agricultores e outros profissionais envolvidos no processo;

16. Distribuição do kit diversidade a todas as famílias das comunidades das Associações das Microbacias pelos próprios agricultores e lideranças das comunidades, acompanhadas pelo facilitador e extensionistas da Epagri;

17. Avaliação das etapas de implementação e dos resultados obtidos com a colaboração de pesquisadores da UFSC

18. Divulgação dos trabalhos desenvolvidos e resultados alcançados.

Palavras-chave

metodologia, biodiversidade, participação camponesa


, Brasil

dossiê

Kit Diversidade: Estratégias para a Segurança Alimentar e Valorização das Sementes Locais (Guaraciaba, Santa Catarina, Brasil)

Notas

Este artigo faz parte de capítulo do livro Kit Diversidade: Estratégias para a Segurança Alimentar e Valorização das Sementes Locais. Organizado por Adriano Canci, Antônio Carlos Alves e Clístenes Antônio Guadagnin (2010). Editora Gráfica McLee - São Miguel do Oeste-SC- Brasil

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