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A prática do Educador: compromisso e prazer

Isabel Alice LELIS

10 / 1996

Foi com muita emoção e muita alegria que recebi essa homenagem - ser paraninfa do grupo de formandos do curso de Pedagogia da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)do primeiro semestre de 1987.

Partindo do juramento prestado por vocês, do sentido dado à turma "saber ser e saber fazer" e tomando como referência a minha experiência como professora e pesquisadora na área de Educação no Departamento apontarei alguns aspectos que me parecem importantes, enquanto pontos a serem refletidos.

O primeiro deles refere-se ao compromisso do professor, do profissional de ensino pelo trabalho que realiza. Esse compromisso é fundamental na medida em que se constitui em horizonte da natureza da prática a ser desenvolvida.

Por compromisso, entendo o envolvimento, o profundo engajamento com o aluno no plano intelectual e afetivo, o qual deve ser perpassado por uma postura de "paixão", de "prazer" pelo trabalho.

Esse compromisso, que é profissional e político, dá o real sentido às nossas ações, ao nosso ofício - sermos profissionais do ensino.

Ele se constrói em processo na medida em que somos chamadas a responder aos desafios e exigência para enfrentarmos os riscos inevitáveis do desconhecido, a capacidade de lidarmos com as diferenças, com o pluralismo de idéias e ações, a capacidade de assumirmos nossos preconceitos e o conservadorismo que existe em nós. Como algo que se desenvolve ao longo de nossa prática, não existem receitas a serem dadas, nem normas de conduta definidas a priori. Como o ato de enamoramento e de intimidade, vejo esse compromisso ir se definindo a partir da vontade política de contribuirmos efetivamente para a construção de uma sociedade e de uma escola democráticas.

Nessa direção, algumas questões se impõem: que escola queremos? Para que tipo de sociedade? Que tipo de homem desejamos formar? Quais as alternativas possíveis que dispomos para respondermos aos graves problemas de nosso sistema escolar?

Se, por um lado, essas perguntas são complexas, e as opções em termos das ações a serem desenvolvidas necessitam ser rigorosamente avaliadas, há um pólo que as aglutina - a melhoria da qualidade de ensino da escola de primeiro e segundo graus para todos os cidadãos brasileiros.

Se este deve ser o núcleo de nossas preocupações e requer investimentos permanentes, há um dado que não deve ser ignorado. Hoje, mais do que nunca, não podemos pensar em saídas individuais, a partir de vontades particulares. A existência de uma escola que tenha um projeto articulado, que funcione de modo eficaz passa necessariamente pela construção de uma prática coletiva, por um sentimento de solidariedade entre professores e entre professores e alunos.

Esse coletivo, contudo, deve ser entendido tanto no sentido mais amplo dos movimentos da categoria, como no sentido da escola enquanto "locus" por excelência do trabalho pedagógico. Chamo a atenção para esse aspecto, porque é a escola o espaço que possibilita o encontro sistematizado de seus membros para a discussão e reflexão dos problemas e dificuldades que cad um enfrenta no seu cotidiano.

Entretanto, o alerta a ser feito refere-se ao perigo de cairmos no corporativismo que tende a ser perverso e autoritário ao levar à divisão de interesses e necessidades de determinados grupos e setores, esvaziando a vontade geral, os desejos e motivações da maioria. No nosso caso, no âmbito de nossa profissão, esse fenômeno pode obscurecer a visão do conjunto da problemática educacional.

Em segundo lugar,acredito na necessidade de se redefinir o papel do professor ou do especialista. Mais do que "dono de um determinado saber", a sua ação deve estar fundada a partir de uma premissa: a reconstrução do conhecimento pelo aluno. Essa premissa nega por si mesma a transmissão de conceito, de regras fundadas sobre noções abstratas ou idealizadas da realidade.

Ela permite, na verdade, o estabelecimento de pontes reais entre a história de vida, as experiências acumuladas pelo aluno e os conhecimentos sistematizados que ele precisa dominar. Mas exige, em contrapartida, o pleno domínio do conhecimento a ser trabalhado e da estrutura e evolução desse conhecimento por parte do profissional, pois somente esse domínio lhe permitirá buscar novas alternativas metodológicas, um novo saber fazer.

Se estou valorizando oconhecimento é porque ele constitui o elemento vital a mediar o trabalho entre o professor e o aluno. O significado da relação pedagógica se justifica exatamente pela transmissão, apropriação crítica e produção de um conhecimento novo por alunos e professores.

Essa questão se desdobra em outra de igual importância: não podemos assumir o conhecimento acumulado pela história de forma irrestrita e absoluta. Nas palavras de Gaston Bachelard (1986, p.v), "o conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão, jamais retidão plena e definitiva, sempre permanente retificação...Essa afirmação traz subjacente a necessidade de sermos rebeldes, de sermos um pouco quixotescas, de sermos inquietas diante de pressupostos teóricos racionalmente afirmados, sem ignorarmos os grandes avanços da ciência em todas as áreas do saber.

Para terminar, companheiras, eu diria que, certamente vocês irão se defrontar com dificuldades, obstáculos de variada natureza, mas tenho a certeza de que vocês constituiem uma grande força na reconstrução da escola enquanto instituição que tem um papel a cumprir na luta, pela democratização de toda sociedade.

Agora, já profissionais da educação, eu desejo bastante emocionada que cada uma encontre as suas respostas competentes e adequadas ao momento atual por que passa a educação brasileira.

Sucesso é o que vos desejo, do fundo do coração.

Palavras-chave

educação popular, educação, formação, educador


, Brasil, Rio de Janeiro

Notas

Isabel Lelis é professora no Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. (Referência Bibliográfica: BACHELARD, G. O direito de sonhar. São Paulo, Difel, 24ed., 1986.)

Através do insentivo à produção e leitura de fichas de capitalização de experiências pedagógicas, a rede BAM pretende favorecer a um processo de formação continuada junto a coletivos de educadores de jovens e adultos (hoje, existentes nos estados do Rio de Janeiro e Pernambuco). Está apoiado numa metodologia que valoriza a autoria e promove a interação entre educadores de diferentes contextos.

Fonte

Texto original

SAPÉ (Serviços de Apoio à Pesquisa em Educaçào) - Rua Evaristo da Veiga, 16 SL 1601, CEP 20031-040 Rio de Janeiro/RJ, BRESIL - Tel 19 55 21 220 45 80 - Fax 55 21 220 16 16 - Brasil - sape (@) alternex.com.br

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