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Argentina supera a crise ‘graças’… à soja

Luc Vankrunkelsven

06 / 2004

Na crônica sobre o lobo bravo, eu me perguntava se os filhotes de lobo na Argentina também rodam nesses Chevrolets 4 x 4. A ‘Folha de S. Paulo’ de hoje traz a resposta libertadora: “Os sinais de evolução do agronegócio também são visíveis nas fazendas. Os veículos velhos e sem manutenção que rodavam nas estradas – efeito da dura crise econômica que assolou o país nos últimos anos – contrastam com camionetes cheias de barro. Elas estão a serviço das fazendas, mas são jipes de última geração.”

O que está acontecendo? Em 2001, a Argentina foi lançada numa profunda crise econômica. Era um dos alunos mais aplicados do FMI (Fundo Monetário Internacional) com suas receitas rígidas. E, também por isso, foi duramente castigada, embora também haja causas internas para a catástrofe.

Folha: “Dois anos depois dos brasileiros, agora é a vez dos argentinos avançarem no agronegócio. Dois fatores foram fundamentais para este progresso”, afirma um tal de Javier Urquiza, subsecretário de Economia da Secretaria de Agricultura, Ganadería, Pesca y Alimentos. “O primeiro é o fruto da política interna: o fim da paridade um peso = um dólar, no final de 2001, o que deu competitividade aos produtos argentinos. O segundo motivo são os bons preços das ‘commodities’, que elevam a renda dos produtores. A salvação dos argentinos – a exemplo do que ocorreu no Brasil – é, principalmente, na soja. O produto ocupou o lugar de outros grãos e da pecuária. Os argentinos destinam 16,3 milhões de hectares de terras agrícolas para a produção de oleaginosas (soja, girassol, etc.). A soja já ocupa 87% desta área. O girassol, presença forte durante dez anos na área rural da Argentina, ocupa, atualmente, meros 1,8 milhão de hectares (11% da área de sementes oleaginosas).”

Metamorfose da área rural

Omar Etcheverry, um produtor de Navarro: “A soja está ganhando terreno em minha região. O girassol recua e, nesta safra, o milho perdeu 10% da área para a soja. O mesmo ocorre com o gado. A ocupação dos pastos pela soja obriga-nos a vender os animais ainda muito jovens. Muitas matrizes também estão sendo abatidas. Mas, devido à concorrência da soja, o produtor faz as contas e vê que não leva prejuízo com a venda. Os animais pesam de 240 quilos a 280 quilos e rendem de US$ 0,70 a 0,80/kg. Se eu esperar mais oito meses, os animais pesarão 480 quilos, mas receberei US$ 0,60/kg e ainda tenho o custo adicional da ração.”

Pastos que dão lugar a um único produto agrícola: onde foi que já vimos esse filme antes? Em 1992, devido à reforma da política agrícola européia implementada por McSharry (na época Comissário Europeu para Agricultura), o milho passou a receber subsídios na Europa. Muitos pastos, às vezes centenários, foram rasgados pelos arados. Novamente, ‘globalização’ da paisagem: a América está coberta de soja; a Europa, de milho. Desde 1992, quando você vai de Bruxelas para o litoral, no final de agosto, a viagem é feita entre ‘cercas vivas’ de milho. O cenário pode mudar em 2005, porque haverá profundas mudanças no sistema de subsídios da União Européia.

Não só a soja

A euforia de Etcheverry não o impede de falar sobre o passado: “Há três anos, pensei em parar. Nós sobrevivíamos, mas muitos caíram ao longo do caminho devido a problemas financeiros e climáticos.” O homem comprou muitas terras de seus vizinhos, que jogaram a toalha. O segredo de Etcheverry é que ele não põe seus ovos todos na mesma cesta. Ele produz grãos, cria gado, comercializa grãos, exporta. Ele tem uma fábrica de ração e uma revenda de máquinas agrícolas. Tudo na sua própria fazenda. Os bons resultados do agronegócio argentino também impulsionam outros setores. Por exemplo, a revenda máquinas agrícolas de Etcheverry vendeu nos últimos seis meses mais do que nos seis anos anteriores.

A New Holland, líder de venda em máquinas agrícolas no Brasil, escolheu a Argentina para lançar seu mais novo modelo. A maior colheitadeira da América Latina: a CS660. Ela tem uma plataforma de 9 metros, um reservatório para 9 mil litros de grãos, um motor de 280 PK. A máquina pode colher 3,6 mil sacas de 60 kg/dia. O preço varia entre R$ 530 mil e R$ 630 mil, dependendo do modelo  (1).

Quem ainda tem coragem de contestar que há um abismo, não, uma guerra entre a agricultura familiar e o agronegócio de grande escala, produtivista, voltado para exportação?  (2)

29 de junho de 2004.

(1) No dia 29 de junho de 2004, a cotação do euro era R$ 3,68; do dólar era R$ 3,035.

(2) Mais alguns dados:

  • aumento na participação da soja no total das exportações da Argentina:

1995: 19,74%; 1998: 20,92%; 1999: 25,33%; 2000: 25,06%; 2001: 29,04%; 2002: 29,91% (!); 2003: 34,36% (!) [(!) = dados provisórios].

  • exportação de farelo de soja: 1995: 6,89 milhões de toneladas; 1997: 8,14; 1999: 13,10; 2001: 14,62; 2003: 18,43 milhões de toneladas (!)

  • exportação de soja em grão: 1995: 2,52 milhões de toneladas; 1997: 0,48; 1999: 3,05; 2001: 7,35; 2003: 8,65 milhões de toneladas (!)

  • exportação de óleo de soja: 1995: 1,52 milhões de toneladas; 1997: 1,91; 1999: 2,94; 2001: 3,22; 2003: 4,03 milhões de toneladas (!)

Se o preço da soja, no mercado internacional, continuar em US$ 200 por tonelada, o lucro por aqui será grande. Maior do que no Paraná, Brasil. Na Argentina, a produção é de 3 mil kg/ha, o custo de produção equivale a 800 kg a 900 kg. O resto é lucro. No Paraná, a produção por hectare também é 3 mil kg, mas é necessário o equivalente de 1,7 mil kg até 1,9 mil kg para cobrir o custo de produção. Na Argentina, ainda não há focos de ‘ferrugem asiática’, enquanto, nos últimos anos, a ferrugem asiática parece estar se vingando da monocultura no Brasil. Como os argentinos plantam principalmente soja transgênica, tudo o que eles precisam fazer é aplicar uma ou duas vezes glifosato (Roundup, da Monsanto) nas suas lavouras e pronto.

No caso do milho, o custo de produção consome o equivalente a 3,5 mil kg, mas a produção é de 9 mil kg/ha. Seu preço, porém, é pouco mais do que um terço (1/3) daquele da soja e os custos de transporte tornam o produto menos competitivo do que a soja.

Mots-clés

concurrence commerciale, soja, développement économique, inégalité sociale

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Livre

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