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Soja e merenda escolar saudável

Luc Vankrunkelsven

05 / 2005

Eu odeio celulares. Mesmo assim, fui obrigado a comprar um em Porto Alegre porque, no final deste período de três meses, preciso realizar as três semanas de entrevistas com Jean-Pierre Rondas (Radio Klara) e organizar a viagem de Wervel. Um intercâmbio com Fetraf. Também não adianta ter um celular sem créditos, por isso comprei ontem R$ 100 em créditos.

A caminho de Foz do Iguaçu, leio num jornal regional: “50 milhões de brasileiros precisam sobreviver com menos de R$ 100 ao mês.” Engulo seco. Eu sei disso tudo; às vezes escrevo sobre o assunto, mas quando você se defronta com este número duas vezes em 24 horas, você se cala.

Soja ‘sustentável’ ou ‘greenwashing’ “Gatopardismo Ambiental”?

Estamos aqui reunidos para a tão aguardada e muito criticada ‘Mesa Redonda sobre Soja Sustentável’: uma iniciativa World Wildlife Fund (WWF) para reunir Unilever, COOP, Maggi, Fetraf e outros ‘stake-holders’ [diretamente interessados] numa mesa de diálogo, na esperança de reduzir a destruição provocada pela soja. Os opositores chamam a iniciativa de ‘greenwashing’ “gatopardismo ambiental”  (1). Afinal, como é que a soja pode ser ‘sustentável’ dentro do modelo de monocultura? Por isso, há uma grande tensão no ar.

Enquanto brasileiros e alguns holandeses estão em reunião, marco um encontro com Noemi Weiss. Pela primeira vez na vida vou experimentar um ‘rodízio de peixe’. Esta refeição custou um total de R$ 39 para nós dois. Se você comparar com um restaurante no mercado de peixes em Bruxelas, não é muito por todo aquele peixe gostoso. Mas quando você pensa nos R$ 100 ao mês, o estômago fica embrulhado.

Hidrelétricas e miséria social

Noemi começa a falar sobre seu trabalho. Fico sabendo que, desde 1o de janeiro de 2005, ela pode, com a nova administração do município de Foz do Iguaçu, realizar seus antigos sonhos em relação a alimentação. Cerca de 12 (!) partidos, entre os quais o PT e o PDT, fizeram uma aliança para expulsar a ‘velha guarda’ do PMDB da prefeitura. Desde 2000, Noemi trabalha como nutricionista para as escolas municipais e agora também com os centros de educação infantil. É responsabilidade dela que, diariamente, 30 mil crianças nas escolas e 4 mil crianças nas creches recebam alimentos saudáveis. Muitas vezes a merenda é a única refeição do dia. A subnutrição está amplamente disseminada por aqui.

Foz era uma cidade pequena e insignificante, localizada próximo do local onde o Rio Iguaçu deságua no Rio Paraná. Uma cidade sem favelas. Com a construção da maior barragem hidrelétrica do mundo, a Itaipu  (2), dezenas de milhares de pessoas deslocaram-se para cá para trabalhar na obra. Quando a barragem foi concluída, em 1984, a maioria ficou desempregada. As favelas multiplicaram-se como câncer pela cidade que, atualmente, tem 280 mil habitantes. Em Foz só há renda graças aos turistas, atraídos pelas cataratas e por Itaipu. Além disso, restava o comércio ilegal com o Paraguai, que faz divisa com a cidade. Ultimamente, o governo aumentou a fiscalização sobre o contrabando e milhares de famílias ficaram sem renda. No bairro de Noemi moram 5 mil pessoas, das quais a maioria não tem renda.

Merenda escolar com soja na ‘terra da carne’

Desde janeiro, Noemi está mergulhada no trabalho, mas agora ela finalmente tem a chance de testar vários produtos de soja na merenda escolar. O projeto retoma o trabalho de um ex-prefeito, dez anos atrás. O prédio da panificadora foi reformado e os jovens recebem treinamento na produção de pães de soja, macarrão de soja e, futuramente, também biscoitos de soja para as escolas e creches. Na usina do núcleo de nutrição e alimentos, é produzido suco de soja: oito litros de suco de soja com um quilo de grãos. Dentro em breve chegará um equipamento mais sofisticado, com um sistema que poderá produzir 18 litros de suco de soja com um quilo de grãos. O resíduo protéico entrará, em até 30%, na composição do pão e do macarrão. Logo o macarrão será composto em 50% desta proteína de soja. No futuro, o suco de soja será misturado com suco de frutas. Enquanto nutricionista, Noemi tenta substituir o cardápio tradicional de ‘arroz – feijão – carne’ por ‘arroz – feijão – verduras’. É óbvio que há muita resistência, principalmente por parte dos professores. A idéia dominante por aqui é que você não se alimentou se não comeu carne! Entretanto, é mais saudável e, pela diminuição na quantidade de carne, é reduzido o custo de um dos itens mais caros do projeto. O governo federal contribui com R$ 0,18 por dia para cada criança, e o restante é financiado pela prefeitura.

Os mais pobres e alimentação saudável

A nova administração municipal está cheia de idéias. Num futuro próximo eles pretendem, em parceria com organizações locais, atender – quinzenalmente – as famílias mais carentes. Elas também receberão o pão e o macarrão de soja. Eles irão organizar feiras de produtores e os alimentos para as 40 mil crianças não mais serão adquiridos no ‘buraco negro’ do mercado anônimo. Não, eles querem comprar os produtos dos agricultores da região. Esta não é uma iniciativa original no Brasil, mas é inovadora nesta região.

Itaipu – que desde 1985, já provocou uma série de problemas ambientais e sociais – iniciou, a partir do governo Lula, um trabalho de recuperação, financiando diversos projetos sociais e ambientais. O ‘cartão de visitas’ é o projeto ‘Cultivando água boa’, que visa conscientizar os brasileiros acerca deste bem valioso que é a água.

Recentemente foi iniciado um programa de alfabetização para adultos em Foz do Iguaçu. Itaipu também contribuiu para a participação de agricultores de Fetraf na mesa-redonda.

Esperemos que Itaipu ainda continue por muitos anos com seu movimento de recuperação e que apóie ‘aves raras’ como Noemi, que luta por uma alimentação saudável na ‘terra da carne’.

Alimentação saudável: não só para as elites, mas também para os pobres da cidade.

 

 

(1) O pesquisador ambiental Roberto Guimarães criou uma feliz expressão – o ‘Gatopardismo Pós-Moderno’ – para mostrar os motivos pelos quais todos concordam que a sustentabilidade pode ser a salvação do planeta mas, na hora de substituir a ‘Economia Predadora’ pelo ‘Desenvolvimento Sustentável’, a maioria desconversa e apresenta o argumento surrado de sempre: “precisamos produzir mais para acabar com a fome do mundo”. www.sema.ms.gov.br/ler.php?id=245.Ou, como dizia um personagem do romance ‘O Leopardo’ (‘Il Gattopardo’, em italiano), de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957): “Às vezes é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique como está.” Em espanhol, também se usa ‘gatoverdismo’ – propor pequenas mudanças, trocando seis por meia dúzia.
(2) Em tupi-guarani, itaipu significa ‘pedra que canta’. Pela construção da barragem de Itaipu, porém, a pedra ‘itaipu’ foi submersa, bem como a bela região de Sete Quedas. Os Guarani foram expulsos e milhares de agricultores perderam suas terras. Este foi um dos fatos que levou à criação, em 1984, do MST. Tal destruição só pôde ser idealizada por uma ditadura militar. Um objetivo secundário dos militares era, portanto, estratégico-militar: se abrissem totalmente as comportas da barragem, seria possível inundar a cidade Buenos Aires, localizada milhares de quilômetros rio abaixo. Os brasileiros continuam possuindo um traço megalomaníaco. Assim como os norte-americanos, eles gostam de ser o ‘Número Um’. Agora, com uma nova barragem, a China ameaça desbancá-los nesta corrida pelo primeiro lugar. Por isso estão sendo construídos mais dois gigantescos geradores, que entrarão em funcionamento em setembro de 2005. É claaaaro que é por causa do aumento na demanda de energia.!?

Mots-clés

dégradation de l’environnement, énergie hydraulique, dictature, enfant, malnutrition


, Brésil

dossier

Navios que se cruzam na calada da noite: soja sobre o oceano

Notes

Esse texto foi tirado do livro « Navios que se cruzam na calada da noite : soja sobre o oceano » de Luc Vankrunkelsven. Editado pela editora Grafica Popular - CEFURIA en 2006.

Source

Livre

Fetraf (Fédération des travailleurs de l’agriculture familiale) - Rua das Acácias, 318-D, Chapecó, SC, BRASIL 89814-230 - Telefone: 49-3329-3340/3329-8987 - Fax: 49-3329-3340 - Brésil - www.fetrafsul.org.br - fetrafsul (@) fetrafsul.org.br

Wervel (Werkgroep voor een rechtvaardige en verantwoorde landbouw [Groupe de travail pour une agriculture juste et durable]) - Vooruitgangstraat 333/9a - 1030 Brussel, BELGIQUE - Tel: 02-203.60.29 - Belgique - www.wervel.be - info (@) wervel.be

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